quinta-feira, 30 de dezembro de 2010




Instante
De Carlos Drummond de Andrade




Uma semente engravidava a tarde.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava coice,

mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.

A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.

E que mais, vida eterna me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.

domingo, 26 de dezembro de 2010




Flor que não dura
Fernando Pessoa



Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.



Uma maior solidão
De Fernando Pessoa



Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010





DESMANTELO AZUL
De Carlos Pena Filho



Então pintei de azul os meus sapatos

por não poder de azul pintar as ruas

depois vesti meus gestos insensatos

e colori as minhas mãos e as tuas



Para extinguir de nós o azul ausente

e aprisionar o azul nas coisas gratas

Enfim, nós derramamos simplesmente

azul sobre os vestidos e as gravatas



E afogados em nós nem nos lembramos

que no excesso que havia em nosso espaço

pudesse haver de azul também cansaço



E perdidos no azul nos contemplamos

e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul: azul.

domingo, 19 de dezembro de 2010




A Lição de Poesia
De João Cabral de Melo Neto




1. Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010






A Carlos Drummond de Andrade
De João Cabral de Melo Neto




Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010





IMPROVISO
De Cassiano Ricardo




... Até que um dia,
quando menos se espera,
surge uma casa dentro do sertão
surge outra casa dentro do sertão
surge outra casa uma porção de telhas novas cor
de brasa uma porção de casas.

E uma cidade como caixa de surpresa
listou de branco e de vermelho o silêncio da grota.
Um trem de ferro passa cheio de imigrantes...
(Há em seu apito como um grito de alvorada e de tristeza:
há em toda terra um choro típico de criança,
gosto de lágrimas misturadas com esperança).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010





Queixa antiga
De Cassiano Ricardo




É uma dor que me dói muito longe...

Dor antiga, separada do corpo.



É uma dor que me dói não sei onde,

meio física, metade celeste.



Um tanto minha, outro tanto da terra.



Veja o galho cortado a uma fronde

e que ainda dá flores sentidas

e que assim à sua árvore responde.



Seu futuro parece o meu passado:

minhas longas raízes ficaram

no chão duro de onde fui arrancado.



(No chão duro onde arroios felizes

ainda cantam pelos vãos do passado)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010



Nota (do blog revistamododeusar):Incluída no lendário “Álbum Branco” dos Beatles, a letra possui uma história curiosa, com seu caráter “colagístico” e de descontinuidade, a montagem de fragmentos de canções, que Lennon uniria naquela que é uma das mais difíceis e enigmáticas do álbum, com sua métrica irregular e constante mudança melódica. Lennon declarou que “Happiness is a warm gun” seria sua “história portátil do rock”, com várias pequenas partes em uma canção de cerca de 3 minutos.



A felicidade é um revólver quente
John Lennon
Tradução de Carlos Drummond de Andrade



Até que essa garota não erra muito
Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo
como lagartixa na vidraça.


O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.


Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver


A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólver quente
lá isso é.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010





A AUSENTE
De Augusto Frederico Schmidt




Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.

Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer,
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados —
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.

Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que o s pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão>

Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010





POÉTICA
De Manuel Bandeira




Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente de
protocolo e manifestações de apreço no ar, diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretario de amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneira
de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

sábado, 4 de dezembro de 2010






Belo Belo
De Manuel Bandeira




Belo belo belo,
Tudo tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passsou! - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

ROTINA






Seis horas
José na mesa
Maria no fogão
Café
Beijo ligeiro
Poucas palavras.

Noite
José na cama
Maria também
Amor ligeiro
Nenhuma palavra.

Seis horas
José na mesa
Maria...
...Não sei.


Tadeu Rocha

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010





BODA ESPIRITUAL
De Manuel Bandeira




Tu não estás comigo em momentos escassos:

No pensamento meu, amor, tu vives nua

- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.



O teu ombro no meu, ávido, se insinua.

Pende a tua cabeça. Eu amacio-a ... Afago-a ...

Ah, como a minha mão treme ... Como ela é tua ...



Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.

O teu corpo crispado alucina. De escorço

O vejo estremecer como uma sombra n'água.



Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.

E para amortecer teu ardente desejo

Estendo longamente a mão pelo teu dorso ...



Tua boca sem voz implora em um arquejo.

Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto

A maravilha astral dessa nudez sem pejo ...



E te amo como se ama um passarinho morto.

CÉU NEGRO






É noite e a lua tarda em aparecer
As estrelas gritam no céu negro
E a lua ainda não apareceu.

O riacho que corre ao lado é podre
A vegetação é feia e silenciosa
A noite em si é mistério
E meus olhos ainda procuram a lua.

O céu negro provoca-me
Parece guardar tantos segredos
As estrelas teimam em falar de você
E meus pensamentos se confundem
Enquanto meus olhos contemplam a lua ausente.

A noite sem luar é perversa
O riacho podre corre com sacrifício
A vegetação não fala
O céu negro desapareceu
A magia da noite se perde na manhã
E quem aparece é o sol.


Tadeu Rocha

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010




DESENCANTO
De Manuel Bandeira




Eu faço versos como quem chora

De desalento ... de desencanto ...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.



Meu verso é sangue. Volúpia ardente ...

Tristeza esparsa ... remorso vão ...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.



E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.



- Eu faço versos como quem morre.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010






A hora do cansaço
De Carlos Drummond de Andrade



As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

domingo, 28 de novembro de 2010

VIVÊNCIA





Em sua casa: intrigas
Na sua vida: confusão
Na estrada: você pedindo carona
No carro: palavras soltas versus tédio
Na chegada: dúvidas
Na noite: o banco da praça substitui a cama
No dia: a força de vontade é o combustível de viver
Na procura: portas fechadas
Os dias são como anos
A carteira jaz vazia
Quando você definha: uma porta se abre!
Sua cama agora é um piso de pensão
Os anos são como dias
Agora você está em seu carro
O jovem não entende
Quando você para e lhe dá carona
A lágrima que cai.


Tadeu Rocha

quinta-feira, 25 de novembro de 2010





A Bruxa
De Carlos Drummond de Andrade



Nesta cidade do Rio
De dois milhões de habitantes
Estou sozinho no quarto
Estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
Anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida. E sinto a Bruxa
Presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
E a essa hora tardia
Como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
Que entrasse nesse minuto,
Recebesse esse carinho
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal, calma.
Porém a essa hora vazia
Como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos,
Sei os beijos mais violentos,
Viajei, briguei, aprendi
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras

Mas se tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
Querendo romper a noite
Não é simplesmente a Bruxa.
É antes a confidência
Exalando-se de um homem.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

PULMÕES SEM AR





Arames farpados
Corpos mutilados
Guerras mundiais
Preconceitos banais.

São tantos pulmões sem ar
São tantos caminhos sem direção.

Desce estrela cadente
E vem construir
Nas ruínas dos pensamentos
A catedral do teu sentimento.

Recintos fechados
O medo estampado
O ódio ventilado
E ninguém acordado.

São tantos pulmões sem ar
São tantos caminhos sem direção.


Tadeu Rocha

sexta-feira, 19 de novembro de 2010



De Carlos Drummond de Andrade



Notícias
2009 - NOVA REUNIAO 23 LIVROS DE POESIA - VOL.1



Entre mim e os mortos há o mar
e os telegramas
Há anos que nenhum navio parte
nem chega. Mas sempre os telegramas
frios, duros, sem conforto.

Na praia, e sem poder sair.
Volto, os telegramas vêm comigo.
Não se calam, a casa é pequena
para um homem e tantas notícias.

Vejo-te no escuro, cidade enigmática.
Chamas com urgência, estou paralisado.
De ti para mim, apelos,
de mim para ti, silêncio.
Mas no escuro nos visitamos.

Escuto vocês todos, irmãos sombrios.
No pão, no couro, na superfície
macia das coisas sem raiva,
sinto vozes amigas, recados
furtivos, mensagens em código.

Os telegramas vieram no vento.
Quanto ao sertão, quanta renúncia atravessaram!
Todo homem sozinho devia fazer uma canoa
e remar para onde os telegramas estão chamando.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010






O ENXADRISTA
Para Henrique Costa Mecking



Ele lançou sobre as peças,
Um último olhar em busca de esperança.
Contemplou pensativo seu adversário.
Finalmente ergueu seu rei,
Num movimento lento e triste,
E o deitou suavemente
Sobre o tabuleiro,
Como querendo adiar seu calvário.
Cumprimentou seu oponente
Em sinal de respeito.
Levantou-se
E, com a cabeça baixa,
Seguiu seu caminho.
De volta a sua cidade
Tratou de dizer aos camaradas:
- O tempo não ofuscou sua genialidade.
Mequinho continua Mequinho!


Tadeu Rocha



Nota: Na segunda foto Mequinho, aos 7 anos, enfrenta ao mesmo tempo 20 adversários. Teve seu auge no ano de 1977, quando foi considerado o terceiro melhor jogador do mundo, superado apenas por Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi, tendo disputado com o último a final do torneio de candidatos. O enxadrista teve uma doença grave, a miastenia, que compromete seriamente o sistema nervoso e os músculos. A doença fez Mequinho abandonar as competições em 1978. Em 2000, ele voltou a jogar e até hoje é um dos melhores jogadores do País (nas partidas chamadas "relâmpago" ele é ainda insuperável em seu país). Mequinho é um gênio ainda pouco reverenciado.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

FASES





Meus olhos contemplam o botão
O botão sobre a camisa xadrez
De brancas prefiro a inglesa
De negras a siciliana
Por sobre o tablado
Invejo a lua
A vida possui duas fases:
A do encontro
E a do desencontro.


Tadeu Rocha

Nota: Inglesa e Siciliana são aberturas do(a) jogo/arte do xadrez.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sentimento do Mundo





De Carlos Drummond de Andrade



Sentimento do Mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desfiando a recordação
do sincero, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite

Os ombros suportam o mundo




De Carlos Drummond de Andrade



Os ombros que suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

domingo, 14 de novembro de 2010

Fuga em azul menor




De Cassiano Ricardo



O meu rosto de terra

ficará aqui mesmo

no mar ou no horizonte.

Ficará defronte

à casa onde morei.

Mas o meu rosto azul,

O meu rosto de viagem,

esse, irá pra onde irei.



Todo o mundo físico

que gorjeia lá fora

não me procure agora.

Embarquei numa nuvem

por um vão de janela

dos meus cinco sentidos.

E que adianta a alegria

dizer que estou presente

com o meu rosto de terra

se não estou em casa?



Inútil insistência.

Cortei em mim a cauda

das formas e das cores.

(A abstração é uma forma

de se inventar a ausência)

e estou longe de mim

nesta viagem abstrata

sem horizonte e fim.



Um dia voltarei

qual pássaro marítimo,

numa tarde bem mansa

à hora do sol posto.

Então, loura criança,

Ouvirás o meu ritmo

e me perguntarás:

quem és tu, pobre ser?

Mas, eu vim de tão longe

e tão azul de rosto

que não me podes ver.



A graça de quem mora

no país da ausência

certo consiste nisto:

ficar azul de rosto

pra não poder ser visto.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

É infinita esta riqueza abandonada





De EDGAR BAYLEY
Tradução de Renato Rezende



esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio

não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Compartilhando pela segunda vez

Senti uma vontade imensa de publicar novamente esses dois poemas. Aos que já tiveram a oportunidade de ler, sejam tolerantes com esse Poeta Menor e rascunho de blogueiro que sou.





TEOLOGIA DA SECA



Irmão sede
Irmã fome
Teologia da seca
Anjos de ossos
Sem asas
Sem dentes
Seita sem nome

Oásis de caatinga
Missa de cactos
Cacos de esperança
Crença de sequidão

Sertão
Distância menor
Entre a terra e o sol
Assim diz meu cordel
Venha a nós o São Francisco
Como bolero de Ravel.

Tadeu Rocha



TESÃO DA TERRA


O relógio solar
Só marcava meio dia

A terra violentada pelo sol
Revoltada não produzia

O seu amor era o mar
Que pelo céu não descia

O seu tesão era beijo líquido
Que a nuvem não trazia.


Tadeu Rocha

ESTRELA MORTA



De Augusto Frederico Schmidt
Gentilmente enviado por Arsênio Meira Junior



Morta a Estrela que um dia, solitária,

Nasceu em céu sem termo.

Morta a Estrela que floriu nos meus olhos.

Morta a Estrela que olhei na noite erma.

Morta a Estrela que dançou diante dos nossos olhos,

A Estrela que descendo acendeu este amor

Morta a Estrela que foi para o meu coração,

Como a neve para os ninhos

Como o pecado para os santos

Como a ausência de Deus para os condenados.

(Canto da Noite, 1934)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

DESFECHO






Segue o enterro
Um único caixão
Uma única testemunha
Um único luto
Uma única vela
Ora acesa
Quase apagada

Segue o desfecho
De vários anos
De várias alegrias
De vários amores
De várias agonias
De vários sonhos
De várias chamas
Outrora acesas
Agora apagadas


Tadeu Rocha

terça-feira, 26 de outubro de 2010

SOBERBA



De LIENTUR ESCOBAR PEÑA
Tradução de Antonio Miranda



Eu perdôo o pão que me negavas

mas cravo o martelo

o amor

que me escapa.



Não quero batalhas

de sangue

nem castelo de naipes.



Apenas busco

o veleiro onde o ar

é ar

e a onda

abano de sal

para espantar

minha calma figurada.





Não pude separar o sino de tua casa

do saguão sulino

de minha terra

então; ou tu vens

ou vais,

deixa-me

teu nome já me basta.



O telefone não responde

mas tua voz não reclama

—Amar assim é de néscios—

e não perdôo

as mentiras

que a covarde

dou migalhas.



Deus já sabe

quem engana.

Vales quanto vales

Honra sem Espada.

sábado, 23 de outubro de 2010

AUSÊNCIAS





Contemplei a noite
Invadida pelos astros
E desejei o teu brilho

Contemplei o sol
Copulando a terra
E desejei o teu calor

Contemplei o vestido
Despido do teu corpo
E lamentei tua ausência

Contemplei os cômodos
Repletos de saudade
E lamentei minha presença.


Tadeu Rocha

PRESENÇA





Ainda que todas as orquestras
Se unam em um grande concerto
E todas as vozes em um único coro
Não haverá música
Se ao meu lado não houver você.

Pode um silêncio tirano
Banir de todo instrumento o som
E calar toda voz
Que haverá uma canção de amor
Uma música contagiante
A bailar nossos corações
Tão somente
Se ao meu lado houver você.


Tadeu Rocha

CONTRASTE (Poema Inverbal)





Granadas e Flores
Bazuca Tulipa
Balas Orquídeas
Scud e Rosas

Bombas Atômicas e Pétalas
Radares e Girassóis
E grito!
E lágrima!
E morte!
E nada!

O Soldado Fantoche
E o nobre Beija-Flor
Antíteses de um mesmo cenário

A terra e o homem infértil
Juntamente com o fim
Sinônimos ou filhos gêmeos
No ventre da mãe gentil


Tadeu Rocha

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

AZUL E TINTO





Guarda contigo
Meu verso nu e tinto
Que eu levo comigo
O grito do que sinto.

Cristais da calma
Projetados ao chão
Fúria das águas
Lágrimas de vulcão.

Guarda contigo
Cais e caos dos meus abismos
Que eu levo comigo
Teu sorriso
Cálice de absinto.

Sonho perdido!
Um sol de Dante
Sabota meu passeio de Ícaro
Deixo contigo as asas
E levo comigo o azul diluído


Tadeu Rocha

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poema de Hans Magnus Enzensberger - O OUTRO



De Hans Magnus Enzensberger
Tradução Kurt Scharf/Armindo Trevisan



Alguém ri
preocupa-se
segura meu rosto com pele e pêlo sob o céu
deixa rolar palavras da minha boca
alguém que tem dinheiro e medo e um passaporte
que briga e ama
alguém se move
alguém estrebucha

mas não eu
Eu sou o outro
que não ri
que não tem rosto sob o céu
nem palavras na boca
que é desconhecido de si e de mim
não eu: o outro: sempre o outro
que não vence nem é vencido
que não se preocupa
que não se move

o outro
indiferente a si
do qual não sei
do qual ninguém sabe quem é
que não se move
esse sou eu

sábado, 2 de outubro de 2010





Eu queria saber desenhar
Pra poder dizer tudo
Que vai dentro de mim.
Esse grito contido,
Essa espera,
São frutos de um mesmo
Sentimento.
Sentir Deus em toda sua
Pureza, perfeição e glória.
Ter uma pequena idéia
Do seu reino
Através das estátuas
De sol em
Uma onda que se quebra
Num mar agitado e tenso...
E de uma aurora
Que se descortina
Em mil cores vivas
Esvoaçando e abrindo
Sua mente em paz.
A paz de uma onda
Que se quebra
Contra o vento e deixa
Uma névoa de música
No seu rastro,
Branca e pura como
A areia ainda intocada;
A paz
De um dia novo que
Começa no coração
Da gente;
Como um sentimento
De uma gaivota
Planando num mar
Límpido e cristalino.
E toda a força
Da chuva
Molhando nossas almas
À beira-mar...
E sentir que tão poucos
Sentem isso.

Carlos Maia

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

CUBISTA





Lágrimas de bálsamo
Curam minha mágoa
Cântaro quebrado
Sorriso da alma

Olho com desejo
Aquele retrato
Docemente perfeito
O teu eqüilátero

Recolho do chão
A ampulheta espatifada
Pinto um quadro cubista
Da minha vida despedaçada


Tadeu Rocha

terça-feira, 28 de setembro de 2010

SOMBRA NO ESCURO





Céu azul tornou-se cinzento e escureceu
Minha sombra no escuro divaga
Neste devaneio sou entranha da noite
Minhas veias cospem sangue

A solidão desfila nua no quarto
Frases perdidas se encontram na mente
Meus olhos contemplam minha sombra
A saudade morreu na esquina
Agora somos amantes.

Céu negro tornou-se azul
Não cheguei a lugar algum
Minha sombra perdeu-se no sol
A noite deixou sua marca em meu corpo
Solidão! Onde você está?

Tadeu Rocha

domingo, 26 de setembro de 2010

OS TRÊS VENENOS



De CARLOS LÓPEZ DE GREGORI
Tradução de Antonio Miranda



És três, Fulgor,

nesta noite

de espelhos.



Três venenos

ou três flores

com as bocas acesas

ou três afiados corações

trazidos pelo vento,

pelo sonho,

pelo mar.



És três portas abertas

à sombra de uma alcova

que me aguarda desde sempre.

Nela existem degraus

que ninguém sabe se descem ou sobem,

tem três camas, três lençóis volantes

três velas,

três bosques de carne ou de cristal

e três pulsos

e três tormentas

e três ecos

e três mortes.



És três feras de lume.



Três fios que para ver-te não ver-te

costuraram

e descosturaram

minhas pestanas.



Três línguas

abrasadas em minha língua

balbuceando em um idioma impossível

minhas histórias e segredos:

esses que cobram vida

e são amores tristes

que caminham

pelos parques vazios

buscando uma única árvore entre todas as árvores,

porque ali gravarão na sua casca viva

três vezes

mesmo que doa

e doa

e doa



teu nome definitivo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

MAR...



De SANTIAGO RISSO



O mar

roupagem acesa

fulgor de ondas

labaredas

no horizonte

sigilosamente

no estio

poente em mim

frente

ao sol é um

lagarto

que derrama

suas manhãs

revolvendo-se

frente à luz

do tamis

ondeado em quietude

dançando ao vento

Meus olhos

caíram

para sempre

no mar

SOLIDÃO



De SANTIAGO RISSO



A solidão é um estrépito da onda

contra a beira da praia

vem e vai

em um vaivém incansável,

solidão se cultiva em solidão

cresce como erva

até tornar-se bosque indecifrável,

a solidão é areia movediça

que me arrasta ao profundo

um elo interminável

com o peso da vida



A solidão é saber teu nome

e não poder pronunciá-lo

estar aqui, lá como um deus

que cria e está só

um caranguejo na praia

caminha para trás

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ESTAÇÃO DO CANTO



De EDUARDO MILÁN
Tradução de Eduardo Milán/Claudio Daniel


PÁSSARO é canto


                                                                        Ícaro: queda


pássaro é vôo:


canto e vôo:


plural de pássaro



                                                                        Ícaro: plural


Ícaro é pássaro


porque pássaro em Ícaro é queda


idéia


de asas


lugar do pássaro ou canto que



Ícaro


(água de acordo com)


água não é página:


árido


(página)


árido é



couro


árido agora onde o canto não-


palavras


gesto de inútil


angras


fala baldia



cegos


mãos de não-


vazio de palavras:


não para um índice ou cruz aqui


(de pássaros


giros



longe) 

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

PEQUENO MAPA DO TEMPO



De Belchior


Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração
Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião

Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão

Medo, medo. medo, medo, medo, medo

Eu tenho medo que Belo Horizonte
Eu tenho medo que Minas Gerais
Eu tenho medo que Natal, Vitória
Eu tenho medo Goiânia, Goiás

Eu tenho medo Salvador, Bahia
Eu tenho medo Belém do Pará
Eu tenho medo pai, filho, Espírito Santo, São Paulo
Eu tenho medo eu tenho C eu digo A

Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife
Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá
Eu tenho medo Estrela do Norte, paixão, morte é certeza
Medo Fortaleza, medo Ceará

Medo, medo. medo, medo, medo, medo

Eu tenho medo e já aconteceu
Eu tenho medo e inda está por vir
Morre o meu medo e isto não é segredo

Eu mando buscar outro lá no Piauí
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
Manda buscar outro, maninha, no Piauí

PS.: Música para todos que apreciam as belas composições de Belchior e, especialmente, para Sérgio Martins.

CONHEÇO O MEU LUGAR



De Belchior


O que é que pode fazer o homem comum
neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
a vida comovida,
inteiramente livre e triunfante?

O que é que eu posso fazer
com a minha juventude
quando a máxima saúde hoje
é pretender usar a voz?
O que é que eu posso fazer
um simples cantador das coisas do porão?
Deus fez os cães da rua pra morder vocês
que sob a luz da lua,
os tratam como gente - é claro! - a pontapés.)

Era uma vez um homem e seu tempo...
(Botas de sangue nas roupas de Lorca).
Olho de frente a cara do presente e sei
que vou ouvir a mesma história porca.
Não há motivo para festa: ora esta!
Eu não sei rir à toa!

Fique você com a mente positiva que eu
quero a voz ativa (ela é que é uma boa!)
pois sou uma pessoa.
Esta é minha canoa: eu nela embarco.
Eu sou pessoa!
(A palavra "pessoa" hoje não soa bem -
pouco me importa!)

Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem:
Conheço o meu lugar! (4x)

domingo, 19 de setembro de 2010

Golden Gate Park



De JUAN CARLOS VÁSQUEZ
Tradução de Antonio Miranda


Quando se recolhem as sombras se levantam

as árvores ante mim e soa o fio do

anoitecer arrasando tudo,

sombras e mais sombras, violentas pausas.



Suavemente a morte sem que a agonia se faça

loucura, na quietude me perturbam palavras,

três dias falando de mulheres e em noite

de montanha todos os fantasmas se lançam

para acurralar-me,



pisadas, murmúrios, flautas e esse ranger

distante que completa com desproporcionados metais

meus tormentos,



suavemente morte sem que a fauna me asfixie,

sem que os turnos me plasmem em suas engrenagens

malditas,



vejo através do cristal a confidência e o

último anúncio em meus olhos rotos.

Cansaço da Poesia



De JUAN CARLOS VÁSQUEZ
Tradução de Antonio Miranda


Não há na poesia

nem em meus mecanismos formas.

posso presumir coisas

pensar no azar

esperando uma surpresa ou um milagre,



dizer o já dito

criar importunando

e ainda assim não deixará o ciclo

de seguir com seu desgaste,



que posso te dizer para deixar

de gritar no absurdo.



Creio cansar-te susurrando fatos,

agitando moscas,

estou fraco e flutuo repetindo

ainda que incendiarei as conexões,

os mesmos cárceres e eu incursionando.



E é que observo a mensagem

sobre a planície

com minha onda de toques,

eu quisera ter prolongado em sua

cara minha razão

mas os murmúrios me colocaram

diante das antigas incógnitas

da superfície.

POEMAS QUE PENSAM QUE SÃO GATOS



De CARLOS TRUJILLO
Tradução de Cristiane Grando


Para Iván Carrasco

Há poemas que pensam que são gatos
E ronronam sob o fogão em tardes de domingo
Enquanto a chuva se desliza pela janela
E as cortinas repletas de figuras detêm a paisagem cinzenta
Como uma fotografia pintada na parede
Em dias de um calendário que já ninguém se lembra
Poemas que parecem esquecer-se do mundo
Quando são vistos adormecidos ao lado do fogo
Enquanto a robusta cozinheira
Recolhe uns pães grandes e deliciosos
Doces como frutas frescas
Da boca de um forno recém criado por Deus.

Há poemas que pensam que são gatos enormes e graciosos
Enquanto se esparramam pelas paredes
E se deslizam sobre os telhados
Curvados e tensos
Como se a presa que perseguem fosse a vida
E essa fosse a única oportunidade de apreendê-la

Há poemas que pensam que são gatos
E vão pela vida com sua aparência de gato
Com seu rabo de gato
Com seu reluzente pelo de gato
E seus prodigiosos olhos de gato sábio
Olhando o profundo e a superfície das coisas
Como se para eles o mistério
Ainda fosse uma ideia sem nome

Também há gatos que pensam que são poemas.

CIRCUNSTÂNCIA



De ARMANDO ALVAREZ PRADO
Tradução de Antonio Miranda



1.

Abro a porta.

Fecho-a.



Não há porta.



Não há entrada.

Não tem saída.





2.

Chego, e digo.

Ninguém me entende.



Parto, e calo.

Ninguém me entende.



As palavras?

O silêncio?



Há outra alternativa?



3.

Uma coisa

e outra e outra.



Todas as coisas.



E eu perdido.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ABRE TODAS AS PORTAS



De LUIS ALBERTO DE CUENCA
Tradução de Antonio Miranda


Abre todas as portas: a que conduz ao ouro,

a que leva ao poder, a que esconde o mistério

do amor; a que oculta o segredo insondável

da felicidade, a que te dá a vida

para sempre no gozo de uma visão sublime.

Abre todas as portas sem que pareças curioso

nem dar importância às manchas de sangue

que salpicam os muros das habitações

proibidas, nem às jóias que revestem os tetos,

nem aos lábios que buscam os teus na sombra,

nem a palavra santa que espreita nos umbrais.

Desesperadamente, civilizadamente,

contendo o riso, secando tuas lágrimas,

no limiar do mundo, no fim do caminho,

ouvindo como cantam os rouxinóis,

não duvides, irmão: abre todas as portas.

Mesmo que nada exista dentro.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

QUESTÃO DE TEMPO



De EDGAR BAYLEY
Tradução de Antonio Miranda



questão de tempo talvez

de andar em trens

de encontrar a luz do sol

a guerra e a paz

o caminho que leva ao irmão

ao inimigo

questão de tempo

a música virá

um tribunal julgará teu medo tua pobreza

e outra manhã de modo diferente

o vagabundo que se perde balbuciando

no idioma que os homens falarão

questão de tempo

colonizadores da tristeza e claridade

em tudo falará o difícil amor

a transparência

mas sempre a vertigem

estenderá sombras sobre as sendas

desvendará céus sobre as vozes e o silêncio

e homens solitários

e mulheres sozinhas

falarão sem amparo

sem encontrar a palavra apropriada

o nome da noite

AS SOMBRAS



De EDGAR BAYLEY
Tradução de Antonio Miranda



deixa que esta noite atinja a margem da água

deixa que a sombra oculte pouco a pouco o mar

êle não interrompe sua ronda

nem faz pausas pelo caminho e segue cantando com teu coração

deixa que esta noite surpreenda nosso eco

e a terra afirme em tua alma

se miras melhor as sombras perderão seu equilíbrio

se abrirão em claridades e a água voltará ao seu curso



se miras muito elas rasgarão suas entranhas

e a aurora sairá do mar

estendendo-nos a mão molhada

e um assovio longo e límpido



então poderemos andar pelos atalhos e os montes

até a noite seguinte

até que se aproximem outra vez as margens da água

os limites do espelho e da lua