quinta-feira, 29 de abril de 2010

PALAVRAS EM FORMA DE REDEMOINHO

De Octavio Paz,
Traduzido por Anderson Braga Horta


Abro a janela
que dá

pra nenhuma parte
A janela

que se abre para dentro
O vento

levanta
instantâneas levíssimas

torres de poeira giratória
São

mais altas que esta casa
Cabem

nesta folha
Caem e se levantam

Antes que digam
algo

ao dobrar a folha
se dispersam

Torvelinhos de ecos
aspirados inspirados

por seu próprio girar
Agora

abrem-se noutro espaço
Dizem

não o que dizemos
outra coisa sempre outra

a mesma coisa sempre
Palavras do poema

não as dizemos nunca
O poema nos diz

terça-feira, 27 de abril de 2010

O QUE SERÁ

De Chico Buarque


Uma pergunta e duas respostas de Chico. Na primeira (à flor da pele), fala do amor e da sexualidade e na segunda(à flor da terra) sobre desejo de liberdade em meio a ditadura. Quem encontrar o vídeo de algum show ao vivo de Chico e Milton cantando O que será (à flor da terra), é só postar no comentário que eu faço a substituição.



RODA VIVA

De Chico Buarque
Que é mais do que poeta...é gênio. E é mais do que gênio...é poeta!


segunda-feira, 26 de abril de 2010

MORRE LENTAMENTE

De Pablo Neruda


Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos,
quem não muda de marca, não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is" em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Morre lentamente...

De Pablo Neruda


Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

O TEU RISO

De Pablo Neruda


Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

domingo, 25 de abril de 2010

TEMPESTADES

Por TADEU ROCHA




O relâmpago e o trovão
Rasgaram a noite de repente
E num repente de luz e de grito
Acordaram o velho Chico
Que corria sonolento
Entre Juazeiro e Petrolina.

As cidades despertaram
Sob o metralhar das nuvens
Sob a dança dos raios
O Vento desafiou o Rio
Para um duelo medonho
Numa roda de capoeira.

Cavalos de fogo
Levaram toda inocência
A boneca largada na quina
É o fim da calmaria
Da rosa menina
Que hoje se faz mulher

E a tempestade do amor
Enfrentou a tempestade do céu
Os relampejos dos amantes
Entrelaçaram-se com os celestes
O trovejar ritmado
Dos corpos ardentes
Calou os trovões da noite

O desabrochar da rosa
No amanhecer culminou
E em momento de trégua
No céu e na terra
A calmaria retornou.

sábado, 24 de abril de 2010

O VERDADEIRO AVATAR

POR TADEU ROCHA
O ÚLTIMO MESTRE DO AR


Para quem se decepcionou ao ver que o filme Avatar nada tinha a ver com o desenho de mesmo nome, haverá a oportunidade de ver em julho o que promete ser a melhor adaptação para o cinema de um desenho animado. O Avatar de James Cameron teve um visual bonito, nova tecnologia, um roteiro com mensagem ecológica e muita mídia. Faltou um roteiro mais elaborado. O Último Mestre do Ar, baseado em Avatar - A lenda de Aang, tem tudo para agradar. Gira em torno de um garoto com o poder de controlar os elementos da natureza e que pode ser a chave para uma guerra entre as quatro nações do planeta. Nasce de uma série que conseguiu muitos fãs. Bom enredo, personagens interessantes, o bem contra o mal, a regeneração, a amizade... Segue o trailer:

quarta-feira, 21 de abril de 2010

GRANDES ENCONTROS: CECÍLIA MEIRELES E FÁGNER

O poema que inspirou Canteiros


Marcha
Cecília Meireles

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
- e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.


Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.


GRANDES ENCONTROS: A POESIA DE VICTOR HUGO E A MUSICALIDADE DE FREJAT

Desejo
Victor Hugo

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.


OS FILHOS

De Gibran Kahlil Gibran, do livro O Profeta


Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."
E ele falou:

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

O AMOR

De Gibran Kahlil Gibran, do livro O Profeta


Então, Almitra disse: “Fala-nos do amor.”
E ele ergueu a fronte e olhou para a multidão,
e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz forte, disse:

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
"Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A REVOLUÇÃO DO GRITO

Por TADEU ROCHA



O grito
Tantas vezes engolido
Tantas vezes abortado
Hoje é nascido
Filho de vidas represadas
De dores contidas
De uma liberdade perdida

O grito da minha lâmina
Soa indignação
Soa revolta
Soa furacão
Dança das lâminas

Lâminas de grito
Cortam o silêncio
Cortam a indiferença
Dividem os receios
Com múltiplos cortes
Multiplicando os anseios

A lâmina do meu grito
Uniu-se às lâminas de outros gritos
Gerando novas lâminas de grito
E o grito de todas as lâminas
Uniu um povo desunido
Unido pelo grito
Pela raiz do grito
E pelo corte da lâmina

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O TRAPEZISTA E O EQUILIBRISTA

Por TADEU ROCHA



A realidade arde como fogueira
Devoradora de fantasias.
Sobre ela um trapezista solitário
Avança de sonho em sonho.

Além das fronteiras
Da corda esticada
Quase tudo é pesadelo
Para o equilibrista

A corda estendida
É toda sua fantasia
E o vazio que o cerca
É toda sua realidade

Da mesma forma
Cada trapézio é um sonho
E a distância entre dois sonhos
É o pesadelo do trapezista.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

OS GÊNIOS DO DIA SEGUINTE

Por TADEU ROCHA



Toda vez que acontece uma tragédia surge nos diversos programas de televisão os Gênios do Dia Seguinte. São geólogos, metereologistas, engenheiros, etc. Depois da desgraça feita aparecem os especialistas para explicarem por que aconteceu. A tragédia do Rio de Janeiro e Niterói poderia ter sido evitada. Mas houve omissão dos especialistas e dos políticos. Lembrem que antes houve a tragédia de Angra dos Reis, que deveria ter soado como alerta. Mas esse alerta foi ignorado.
O Recife poderia ter sido palco de grandes tragédias tanto nos morros, como principalmente nas palafitas que existiam no Pina. Houve omissão durante anos por parte de prefeitos e governadores. João Paulo rompeu com o descaso e foi pró-ativo. Removeu os moradores das palafitas para moradias mais dignas e seguras, além de realizar excelente trabalho na prevenção de deslizamentos nos morros. Foi Gênio da Hora Certa e não do Dia Seguinte. Cito exemplo do Recife para mostrar o quanto às autoridades e especialistas do Rio de Janeiro foram omissos. Para se ter uma idéia o PDT esteve à frente da Prefeitura de Niterói em 25 dos últimos 30 anos. Tempo demais e soluções de menos. Chegaram a comparar a tragédia com o Tsunami da Malásia, pra dizer que não poderia ter sido feito nada. Mas poderia.
Há uma briga enorme entre os Estados em relação às riquezas do pré-sal. Mas duvido muito que por trás dessa briga exista o interesse em investir em moradia segura para moradores de área de risco. As preocupações são outras. Enquanto isso chamem os Gênios do Dia Seguinte, que deveriam ser historiadores e arqueólogos, porém são geólogos, engenheiros e políticos.

NA HORA DO RUSH

Por TADEU ROCHA



Amarelo!
Vermelho!
Pés firmes no freio
Buzinas! Gritos!
O toca fita cospe som pelas janelas
Braços estendidos
E o moleque sem graça:
- Moço! Limpo o pára-brisa?

Verde!
Ronco de motores
Canos de escape liberam fumaça
Luzes! Muitas luzes.
O capitalismo sorri a gás néon

Descortinada noite da cidade
Bolsas! Meretrizes! Esquina! Bordéis!
O rio Capibaribe corre podre sob nós
- Corre. Definha. Despede-se...

Cheira-colas
Divididos em três expedientes
Primeiro – tempo de atormentarem senhoras,
Segundo – hora de colar malandragem,
Terceiro – às vezes comida podre nos Coelhos

No ônibus alguém toca pandeiro
Por migalhas
Lá longe Artur alegra ouvidos
Com seu piano
No centro de convenções.

terça-feira, 13 de abril de 2010

segunda-feira, 12 de abril de 2010

TEOLOGIA DA SECA

Por TADEU ROCHA



Irmão sede
Irmã fome
Teologia da seca
Anjos de ossos
Sem asas
Sem dentes
Seita sem nome

Oásis de caatinga
Missa de cactos
Cacos de esperança
Crença de sequidão

Sertão
Distância menor
Entre a terra e o sol
Assim diz meu cordel
Venha a nós o São Francisco
Como bolero de Ravel.

TESÃO DA TERRA

Por TADEU ROCHA



O relógio solar
Só marcava meio dia

A terra violentada pelo sol
Revoltada não produzia

O seu amor era o mar
Que pelo céu não descia

O seu tesão era beijo líquido
Que a nuvem não trazia.

FERNANDO PESSOA PARA SER LIDO AO SOM DA CANÇÃO DO MAR



Fernando Pessoa - MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

LAÇOS FORA!


Por TADEU ROCHA


O Pequeno Discurso


Entre as quatro paredes do quarto, deitada sobre a cama, Darla absorvia com os olhos o relato da independência do Brasil. A expressão “laços fora soldados”, a conduzia pelos corredores iluminados da meditação. E no momento em que a inspiração que pairava ao redor a tomava como abrigo, ela ergueu-se e olhando para os ornamentos do quarto como se fosse um imenso público, começou a ensaiar um discurso:
- Laços fora – começou olhando para o seu urso de pelúcia – é, ao meu ver, o grito maior e a expressão mais significativa do que seja independência. Desviou seu olhar para o abajur.
- Pois independência é o desatar dos laços que nos subjugam. Por isso homens e mulheres – disse correndo os olhos por todo o quarto – rogo que sejais independentes. Rogo-vos para que quebreis as correntes que vos escravizam. Os exorto a removerem as placas de aço das vossas mentes. Placas que chegam a vetar um pensamento próprio; uma arte própria; uma perspectiva própria.
- Laços fora. Porque não existimos para sermos fantoches humanos manipulados por mãos ocultas, de uma ideologia arcaica, errônea e desumana. Que não visa uma causa nossa, mas seus próprios interesses. Interesses daqueles que as articulam.
- Vos peço, tão somente vos peço, para que não confundam liberdade com rebeldia ou libertinagem, que é o objetivo de alguns.
- Sejamos verdadeiramente livres – Darla gira e encara sua imagem no espelho – Caminhemos em um novo sentido.
- Laços fora é o meu grito que ecoa nos idéias que defendo – Darla desce da cama. Caminha para sala e liga a tv. Contemplando um noticiário da constituinte, finaliza seu discurso:
- Se por um pequeno espaço de tempo, vocês se conscientizassem de que um dia terão de prestar contas a uma geração que se forma; se vocês por um pequeno espaço de tempo deixassem de visar seus próprios interesses, figuraríamos perante a assembléia mundial como um povo forte e verdadeiramente independente.
-Laços fora! Sejamos independentes.

Recife, 31 de agosto de 1987

PS: Texto elaborado para um trabalho de português, curso de Economia. Tentativa de uma exposição da função conativa, funcionando a função emotiva num plano secundário

domingo, 11 de abril de 2010

CIDINHA CAMPOS EM DISCURSO NA ALERJ

O AMANHÃ


Por TADEU ROCHA



O discípulo pergunta ao seu mestre:
- Como será o amanhã?
O Mestre responde-lhe:
- Procure nas montanhas celestes, o profeta, e ele te dirá com o nascer da manhã.
Pelo caminho encontrou um engenheiro civil e não perdeu a oportunidade:
- Como será o amanhã?
- Será um edifício imenso e de estrutura sã.
Continua a caminhar e encontra um cirurgião e, ainda ansioso pela resposta, faz soar a mesma pergunta:
- Como será o amanhã?
- Será uma operação. Sangue frio, adrenalina e tensão.
Mais adiante encontra um matemático que não escapa de sua indagação:
Como será o amanhã?
A resposta veio em tom antipático:
- Será uma confusão de eurecas e de cálculos em vão.
De repente, encontra um rei e lhe faz a mesma pergunta
Como será o amanhâ?
- Por que te direi? Não sou eu teu monarca, nem sequer enches minha arca...
Nem mesmo uma criança deixa de responder, dessa vez sorrindo:
- Alegria, harmonia e fantasia.
Por fim encontra o profeta e , dirigindo-se a ele, indaga:
- Como será o amanhã?
_ O profeta olha em seus olhos, dizendo:
Como desejas que ele seja?
- Um dia de paz, respondeu-lhe o discipulo.
- Se você quizer será algo mais, pois o amanhã é o resultado do hoje. Se fazes um alicerce, será um edifício; se fazes uma melodia, será uma canção; mas se fazes um nada, será um imenso vazio.
O discípulo retorna ao seu mestre.
- Mestre, quero colocar o que aprendi em prática.
- Comece primeiro pela sua fé!

sábado, 10 de abril de 2010

MEU LIVRO

Por TADEU ROCHA


Grito é o nome do meu primeiro livro, editado pela Livro Rápido. Grito reúne poemas de diversas fases, cobrindo um período de vinte e dois anos, tornando-se praticamente uma antologia..
Desde os primeiros versos como ESTRELA e PULMÕES SEM AR (1983), aos poemas PROTESTO e ETERNOS CORTEZES, com os quais participei de concursos literários na UNICAP (1989), finalizando com IMORTAL (2005). “PROTESTO” recebeu o seguinte comentário de um dos jurados:
“Abre os horizontes da poesia pouco-verbal-concretista... aproximando-se dos versos por ecos, porém instaurando uma novidade”.
Era um grito ecoado em todas as direções. Poema para ser lido na horizontal, na vertical e na diagonal.
“TEMPESTADES” (2005), torna-se finalista no concurso promovido pelo Sindicato dos Bancários e marca uma etapa de grande produção, após uma fase de páginas brancas.
No livro há também uma justa homenagem a grandes poetas:
Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, João Cabral de Melo Neto, Drummond, Oswald e Mário de Andrade.
É um grito de protesto; de sentimento e de esperança. Um grito que precisava vir à tona.