segunda-feira, 12 de abril de 2010

LAÇOS FORA!


Por TADEU ROCHA


O Pequeno Discurso


Entre as quatro paredes do quarto, deitada sobre a cama, Darla absorvia com os olhos o relato da independência do Brasil. A expressão “laços fora soldados”, a conduzia pelos corredores iluminados da meditação. E no momento em que a inspiração que pairava ao redor a tomava como abrigo, ela ergueu-se e olhando para os ornamentos do quarto como se fosse um imenso público, começou a ensaiar um discurso:
- Laços fora – começou olhando para o seu urso de pelúcia – é, ao meu ver, o grito maior e a expressão mais significativa do que seja independência. Desviou seu olhar para o abajur.
- Pois independência é o desatar dos laços que nos subjugam. Por isso homens e mulheres – disse correndo os olhos por todo o quarto – rogo que sejais independentes. Rogo-vos para que quebreis as correntes que vos escravizam. Os exorto a removerem as placas de aço das vossas mentes. Placas que chegam a vetar um pensamento próprio; uma arte própria; uma perspectiva própria.
- Laços fora. Porque não existimos para sermos fantoches humanos manipulados por mãos ocultas, de uma ideologia arcaica, errônea e desumana. Que não visa uma causa nossa, mas seus próprios interesses. Interesses daqueles que as articulam.
- Vos peço, tão somente vos peço, para que não confundam liberdade com rebeldia ou libertinagem, que é o objetivo de alguns.
- Sejamos verdadeiramente livres – Darla gira e encara sua imagem no espelho – Caminhemos em um novo sentido.
- Laços fora é o meu grito que ecoa nos idéias que defendo – Darla desce da cama. Caminha para sala e liga a tv. Contemplando um noticiário da constituinte, finaliza seu discurso:
- Se por um pequeno espaço de tempo, vocês se conscientizassem de que um dia terão de prestar contas a uma geração que se forma; se vocês por um pequeno espaço de tempo deixassem de visar seus próprios interesses, figuraríamos perante a assembléia mundial como um povo forte e verdadeiramente independente.
-Laços fora! Sejamos independentes.

Recife, 31 de agosto de 1987

PS: Texto elaborado para um trabalho de português, curso de Economia. Tentativa de uma exposição da função conativa, funcionando a função emotiva num plano secundário

2 comentários:

  1. Ótimo trabalho Tadeu, agora fica a pergunta o professor compreendeu?
    João Augusto
    Do caixa ao lado

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  2. Grande João,

    Na época esse texto fez sucesso na UNICAP. Fez parte da campanha para DCE de uma chapa intitulada Independente, que pregava um DCE sem vinculo partidário. Ficamos em terceiro lugar. Quanto ao professor, acredito que ele entendeu e o texto foi lido em sala de aula. Valeu.

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