terça-feira, 29 de junho de 2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

INTERLÚDIO

Por TADEU ROCHA


E o sol que pairava fixo sobre nós,
Finalmente negou sua luz.
Nuvens escuras!
Nossa pequena ilha.
Raios! Trovões!
Vendaval de delícias.

EM TEMPO





De tanto esmurrar o vento
Sangrei os meus punhos, perplexo!
Mas o verdadeiro absurdo
É estar partindo sem você

Se hoje a aventura nos parece comédia
Amanhã a saudade nos tece um drama
- Motorista! Esqueça o aeroporto...


TADEU ROCHA

quarta-feira, 16 de junho de 2010

SERENATA SINTÉTICA

De Cassiano Ricardo,


Rua
torta.

Lua
morta.

Tua
porta.

A RUA

De Cassiano Ricardo,


Bem sei que, muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não,
[apenas,
esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da
[espera.

Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

PARALELAS - BELCHIOR

terça-feira, 15 de junho de 2010

NOÇÕES

De Cecília Meireles,


Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

MADRUGADA

De Ferreira Gullar,


Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes

TRADUZIR-SE

De Ferreira Gullar,


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A ROSA DE HIROXIMA


De Vinícius de Moraes,


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

TECENDO A MANHÃ

De João Cabral de Melo Neto


1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.


2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.

A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

terça-feira, 8 de junho de 2010

VENTO, ÁGUA, PEDRA

De Octavio Paz


A água perfura a pedra,
o vento dispersa a água,
a pedra detém ao vento.
Água, vento, pedra.

O vento esculpe a pedra,
a pedra é taça da água,
a água escapa e é vento.
Pedra, vento, água.

O vento em seus giros canta,
a água ao andar murmura,
a pedra imóvel se cala.
Vento, água, pedra.

Um é outro e é nenhum:
entre seus nomes vazios
passam e se desvanecem.
Água, pedra, vento.


(Trad. Antônio Moura)

DESTINO DO POETA

De Octavio Paz


Palavras? Sim. De ar
e perdidas no ar.
Deixa que eu me perca entre palavras,
deixa que eu seja o ar entre esses lábios,
um sopro erramundo sem contornos,
breve aroma que no ar se desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.

(Trad. Haroldo de Campos)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

ANDARILHO

Por TADEU ROCHA


Sou estranho na cidade estranha
Os carros seguem sem direção
Sou atropelado pelas pessoas nas calçadas
O guarda da esquina me sorri
Não carrego bagagem, nem saudade.
- Só nada

Nos jornais vejo as mesmas notícias
O guarda da esquina se aproxima
_ Documentos! (...) Tudo bem.

Caras vazias contemplam meu rosto
Não fabrico sorrisos – caminho!
Paisagem: carros, fumaça, pessoas...
Poeira no rosto. Estou sujo!

Olhos navalhas
Cortam meu corpo
A ferida lateja na entranha
Outro policial
- Documentos! (...) tudo bem.