quinta-feira, 8 de julho de 2010

O RIO (Fragmento)

De Octavio Paz


A metade do poema sobressalta-me sempre um grande desamparo, tudo me abandona,
não há nada a meu lado, nem sequer esses olhos que por detrás
contemplam o que escrevo,
não há atrás nem adiante, a pena se rebela, não há começo nem
fim, tampouco muro que saltar,
é uma esplanada deserta o poema, o dito não está dito, o não dito
é indizível,
torres, terraços devastados, babilônias, um mar de sal negro, um
reino cego,
Não,
deter-me, calar, fechar os olhos até que brote de minhas pálpebras
uma espiga, um repuxo de sóis,
e o alfabeto ondule longamente sob o vento do sonho e a maré suba
em onda e a onda rompa o dique,
esperar até que o papel se cubra de astros e seja o poema um
bosque de palavras enlaçadas,
Não, não tenho nada a dizer; ninguém tem nada a dizer, nada nem
ninguém exceto o sangue,
nada senão este ir e vir do sangue, este escrever sobre o já escrito
e repetir a mesma palavra na metade do poema,
sílabas de tempo, letras rotas, gotas de tinta, sangue que vai e vem
e não diz nada e me leva consigo.

(Trad. Haroldo de Campos)

3 comentários:

  1. Belíssimo esse poema de Octavio Paz, Tadeu!
    Vou publicá-lo no meu blog!

    Grande Abraço!

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  2. Obrigado pela visita grande Poeta.
    Como foi teu tratamento? Espero que vc esteja bem. Assim deseja a poesia e todos nós!

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  3. Eu estou bem, Tadeu, graças a Deus!
    Há mais de 3 meses sem beber.
    Só tô achando ruim a solidão, pois 100% dos meus amigos eram cachaceiros...
    Mas é assim mesmo, em breve farei novas amizades!

    Grande Abraço, irmão!

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