segunda-feira, 30 de agosto de 2010

TRÂNSITO



De GERARDO LEWIN
Tradução de Roxana Lewin


Lento

Avança o trânsito.

Pétreos estamos

entre ruas e ruas.



Em vão foram mil cartas enviadas

desde um extremo ao outro da minha vida.

Não sei já como lê-las

Nem o que hei de responder.

Aqui estão, como rescaldos frios

de passadas fogueiras.



Tarde passei pelo lugar

onde o poema esteve.

Não ultrapassei o umbral

de onde as palavras se suicidam

pulando, como pó espalhado

de paixões perdidas,

a esse abismo acaçapado.



Lento o trânsito.



Enquanto isso

vou abrindo as cartas uma por uma

com fatigada ira, violento e triste,

assassinando de punhaladas uma lembrança:

tinta diluída pelos anos,

ilusões que esqueceram morrer.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

VIRADELA




Vira ano
Vira carta
Vira copo
Vira sorte
Vira página
Vira notícia
Vira máscara
Vira disco
Vira tudo
Vira nada
Vira mundo

Vi rabeca mágica nas mãos de Madureira
Vi raposas cuidando de ovelhas
Vi rabino perder a fé
Vi rameiras
Vi racismo
Vi raiva
Vi radiação
Vi rara galáxia de girassóis
Vi raios de primavera em olhos de verão
Vi radiante meu amor na escada rolante
Vi raiar a esperança como o nascer de todos os sóis.

Tadeu Rocha

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

OS ABANDONADOS



De Pablo Neruda
Tradução de José Eduardo Degrazia



Não somente o mar, não só costa, espuma,

pássaros de insubmisso poderio,

não só aqueles e estes grandes olhos,

não só a noite em luto com os seus planetas,

não só as árvores com sua alto mansidão,

mas sim a dor, a dor que é o pão do homem.

Mas, por quê? Então naquele tempo eu era

fino feito um fio e bem mais escuro

do que um peixe de águas noturnas, e não pude,

não pude mais, de um golpe quis mudar o mundo.

Pareceu-me estar mordendo a erva mais amarga,

compartir um silêncio manchado de crime.

Mas é na solidão que nascem e morrem coisas,

a razão cresce e cresce até ser desvario,

a pétala se estende sem chegar à rosa,

a solidão é o pó inútil do mundo,

a roda que dá voltas sem terra, nem água, nem homem.

E eu, assim foi como gritei perdido

e que se fez grito sem freio na infância?

Quem ouviu? Que boca respondeu? Que caminhos tomei?

Que responderam

os muros quando batidos por minha cabeça?

Levanta e volta a voz do débil solitário,

gira e gira a roda atroz das desditas,

subiu e voltou aquele grito, e não soube ninguém,

não o souberam nem mesmo os abandonados.

ALTURAS DE MACHU PICCHU (POEMA XII)



De Pablo Neruda
Tradução de José Jeronymo Rivera


Sobe a nascer comigo, irmão

E tua mão estende-me da funda
zona de tua dor disseminada.
Não voltarás do fundo dos rochedos.
Não voltarás do tempo subterrâneo.
Não voltará tua voz endurecida.

Não voltarão teus olhos perfurados.
Vem me fitar da profundez da terra,
lavrador, tecedor, pastor calado:
domador de guanacos tutelares:
pedreiro por andaimes desafiado:
aguadeiro de lágrimas andinas:
joalheiro dos dedos machucados:
agricultor tremendo na semente:
oleiro em tua argila derramado:
trazei ao cálix desta nova vida
as vossas velhas dores enterradas.
Mostrai-me vosso sangue e vosso corte,
dizei-me: aqui fui castigado,
porque a jóia não rebrilhou, ou a terra
não entregou a tempo a pedra ou o grão:
assinalai-me a terra em que caístes
e o madeiro em que vos crucificaram,
acendei-me as antigas pederneiras,
as velhas lâmpadas, os látegos gravados
por séculos e séculos nas chagas
e os machados de brilho ensangüentado.
Venho falar por vossa boca morta.
Na vastidão da terra juntai todos
os silenciosos lábios derramados
e do fundo falai-me toda esta longa noite
como se eu estivesse ancorado convosco,
contai-me tudo, cadeia a cadeia,
contai elo por elo, e passo a passo,
afiai os facões que conservastes,
ponde-os em meu peito e em minha mão,
como um rio de raios amarelos,
como um rio de tigres enterrados,
e deixai-me chorar, horas, dias, anos,
idades cegas, séc'los estelares.

Dai-me o silêncio, e a água, e a esperança.
Dai-me o combate, dai-me o aço e os vulcões.
Trazei a mim os corpos como ímãs.
Acudi minha boca e minhas veias.
Falai pelo meu verbo e por meu sangue.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

IRMÃO



De GUSTAVO TISOCCO
Tradução de Antonio Miranda


Irmão,

a casa continua buscando recantos de luz.

Desfeitos telhados rompem o véu do luar

de distantes lembranças.

Se regressas, busca-me na cadeira de balanço do pátio

onde permanecem ilesas antigas inocências.



Irmão,

o caminho continua árduo e elevado.

As velhas carroças circulam com os sofridos operários.

No céu existem barriletes

com lembranças legendárias.

Se regressas, te espero na cadeira de balanço onde ainda restam

nossos risos interrompidos.



Irmão, se regressas torturado e derrotado

estarei no portão aguardando os passos.

Se não podes regressar,

se teus sonhos arruinaram,

se desapareceste detrás de um manto de ironias,

seguirei esperando-te na velha cadeira de balanço

onde não existem os olvidos.

O ALEGRE APOCALIPSE



De IVONNE BORDELOIS
Tradução de Antonio Miranda


No primeiro dia
passará o anjo que apaga as motocicletas.
No segundo dia
passará o anjo que desliga a televisão.
No terceiro dia
passará o anjo que arrasa os automóveis, os aviões e os navios.
No quarto dia
passará o anjo que derruba os outdoors.
No quinto dia
passará o anjo que cala as sirenas das ambulâncias e bombeiros.

No sexto dia
chegará o anjo do silêncio:
apenas ouviremos as árvores, o mar e as estrelas.

No sétimo dia
os homens começarão a dialogar novamente, suavemente,
frente a frente.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Outro



De Fernando Pessoa
(Alberto Caeiro)


SE EU PUDESSE trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz,
É preciso ser de vez quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

sábado, 21 de agosto de 2010

GRANDES ENCONTROS: O POEMA DE HANS MAGNUS ENZENSBERGER E A MUSICALIDADE DE ARNALDO ANTUNES



Hotel Fraternité

De HANS MAGNUS ENZENSBERGER
Tradução de Aldo Fortes

Aquele que não tem com o que comprar uma ilha
Aquele que espera a rainha de sabá na frente de um cinema
Aquele que rasga de raiva e desespero sua última camisa
Aquele que esconde um dobrão de ouro no sapato furado
Aquele que olha nos olhos duros do chantagista
Aquele que range os dentes nos carrocéis
Aquele que derrama vinho rubro na cama sórdida
Aquele que toca fogo em cartas e fotografias
Aquele que vive sentado nas docas debaixo das gaivotas
Aquele que alimenta os esquilos
Aquele que não tem um centavo
Aquele que observa
Aquele que dá socos na parede
Aquele que grita
Aquele que bebe
Aquele que não faz nada

Meu inimigo
Debruçado sobre o balcão
Na cama em cima do armário
No chão por toda parte
Agachado
Olhos fixos em mim
Meu irmão

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

DÁ-ME TUA LIBERDADE



De PEDRO SALINAS
Tradução de Salomão Sousa


Dá-me tua liberdade.

Não quero tua fadiga,

não, nem tuas folhas secas,

teu sonho, teus olhos cerrados.

Vem a mim a partir de ti,

não a partir do teu cansaço

de ti; quero senti-la.

Tua liberdade me traz,

assim igual a um vento universal,

um odor de madeira.

remotas de teus móveis,

um monte de visões

que tu vias

quando no alto de tua liberdade

já cerravas os olhos.

Que bela tu livre e de pé!

Se me dás tua liberdade me dás teus anos

brancos, limpos e agudos como dentes,

dás-me o tempo em que a gozavas.

Quero senti-la como sente a água

do porto, pensativa,

nas quilhas imóveis

em alto mar. A turbulência sacra.

Senti-la,

vôo parado,

assim como a quieta várzea

sente a rama

onde vem a ave e pousa,

o ardor de voar, a luta pertinaz

contra as dimensões azuis.

Dencanse-a hoje em mim: vou gozá-la

com um tremular de folha em que descem

gotas do céu ao solo.

Quero-a

para soltá-la, somente.

Não tenho cárcere para ti em meu ser.

Tua liberdade te guarda para mim.

Soltarei-a outra vez, e pelo céu,

pelo mar, pelo tempo,

verei como parte para seu destino.

Se o teu destino sou eu, ele te espera.

PELA DÚVIDA TE BUSQUEI



De PEDRO SALINAS
Tradução de Salomão Sousa


Pela dúvida te busquei:

não te encontrava nunca.

Ao teu encontro eu fui

pela dor.

Por ali tu não vinhas.



Ainda mais ao fundo eu desci

para ver, enfim, se estavas.

Através da angústia,

dilaceradora, ferindo-me.

Da ferida tu não surgias nunca.



E ninguém me acenou

—um jardim ou teus lábios,

com árvores, com beijos—;

ninguém me disse

—por isso te perdi—

que ias nos últimos

terraços do riso,

do gozo, da certeza.



Que tu te encontravas

nos topos do beijo

sem dúvida e sem manhã.

No vértice puro

da alegria alta,

multiplicando júbilos

por júbilos, por risos,

por prazeres.

Apontando no ar

as cifras fabulosas,

na leveza de tua felicidade.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

NÃO TE DETENHAS NUNCA




De PEDRO SALINAS
Tradução de Salomão Sousa


Não te detenhas nunca

quando quiseres me buscar.

Se vês muros de água,

amplas fossas de ar,

cercas de pedra ou tempo,

evita os gritos, passa.

Te espero com um ser

que não espera por outros:

onde eu te espero

só tu cabes. Ninguém

pode se encontrar

ali comigo senão

o corpo que te leva

no ar, como um milagre.

Intacto, inalienável,

um grande espaço branco,

azul, em mim, não aceita

mais que os vôos teus,

os passos de teus pés;

não verão nele

outras marcas jamais.

Se alguma vez me olhares

como preso, fechado

atrás de portas,

entre coisas alheias,

pensa nas torres altas,

nas trêmulas alturas

da árvore, firme nas raízes.

As almas das pedras

que estão embaixo servindo

aguardam na última

ponta da torre.

E ali, pássaros, nuvens,

não se enganam: deixando

que os homens e os dias

pisem embaixo,

se estão ali em cima,

no alto da árvore,

no topo da torre,

certos de que ali,

na última fronteira

de seu ser terreno

é onde se consumam

os amores alegres,

os solitários encontros

da carne e das asas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

LIBERTAÇÃO



De PEDRO HOMEM DE MELLO


Pesa-me, inteira,

A flor que falta

Para a roseira

Ficar mais alta.

Pesa-me a Lua!

E a noite vem,

De espada nua,

Buscar alguém...

Pesa-me a neve.

Ou a montanha?

Dizem que é leve.

Mas é tamanha!

Chumbo ou veludo.

Seja o que for!

Pesa-me tudo

Menos a dor.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010




Porque me atrevo a poemas …


Para que os pulmões no esforço do verso

Não me deixem a deriva nas crises de alma,

Para que o açude que tenho no olhar

Deságue no abandono do mundo , quando ele olhar prá mim.

Para que a ausência dos que levitaram

me faça ir além e sempre sem olhar prá trás.

Para que minhas mãos não se escondam

e que o papel não se envergonhe da luz…

Para que o meu coração saiba sempre

que o sangue que ele ajuda a caminhar

é humano …

Domingos Sávio

quarta-feira, 11 de agosto de 2010




As praças
Todas as praças
Voavam dentro da noite
Como mariposas fogosas,
Milhares de cegos,
Vagabundos
Mendigos
As estrelas choravam
Mas os homens insensíveis
Ao pranto do próprio
homem
Viravam as costas à dor
E um romançal trovador
Gritava na noite
Plena:
"Liberdade, Liberdade!"

Carlos Maia



E a cidade brilhava,
Sob as estrelas,
As suas luzes tranquilas...
E lembrava o sonho
Dos Reis Magos
A passear naquele céu
Pleno de paz...
E a terra
Pulsava em harmonia
Naquela noite
Sob as estrelas...
Como se o despertar
Dos homens
Fosse um sonho
Possível,
Naquela noite,
Naquela cidade,
As estrelas...

Carlos Maia



Até onde eu lanço esse grito?
Até o encontro
Das estrelas e das galáxias
Até o vazio
Das paredes deste quarto
Até onde
Vai o medo
Até onde
Uma palavra mal interpretada
vence uma amizade
Até onde
Eu não soube calar
Até onde
Eu não esperei
Até onde
Eu machuquei
Até onde
Eu sangrei todos esses anos
Até
Até
Até
Até encontrar
A Paz...

Carlos Maia

terça-feira, 10 de agosto de 2010

POEMA A BOCA FECHADA



De JOSÉ SARAMAGO


Não direi:

Que o silêncio me sufoca- e amordaça.

Calado estou, calado ficarei,

Pois que a língua que falo é doutra raça.



Palavras consumidas se acumulam,

Se represam, cisterna de águas mortas,

Ácidas mágoas em limos transformadas,

Vasa de fundo em que há raízes tortas.



Não direi:

Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,

Palavras que não digam quanto sei

Neste retiro em que me não conhecem.



Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,

Nem só animais boiam, mortos, medos,

Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam

No negro poço de onde sobem dedos.



Só direi,

Crispadamente recolhido e mudo,

Que quem se cala quanto me calei

Não poderá morrer sem dizer tudo.

domingo, 8 de agosto de 2010

AMOR AMAZONAS




Quarto deserto
Transfigurado
Em um quarto do Saara
Pela tua ausência
Gobi sem oásis
Sem verde
Sem vida
Sem nada
Atacama de saudade
Da flora
Da fauna
Do nosso Amor Amazonas
Rico
Vasto
E vivo

TADEU ROCHA

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

POEMA IMPACIENTE



De EMILIO BALLAGAS
Tradução de
Alai Garcia Diniz e Luizete Guimarães Barros


E se você chegar tarde,

quando minha boca tiver

sabor seco de cinzas,

e de terras amargas?



E se chegar quando

a terra removida e escura (cega, morta)

chova sobre meus olhos,

e desterrado da luz do mundo

te busque em minha luz,

na luz interior que eu achava

que vinha fluindo em mim?

(Quando talvez descubra

que nunca tive luz

e ande tateando dentro de mim mesmo,

como um cego que tropeça a cada passo

com lembranças que ferem como cardos.)



E se chegar quando já o tédio

ate e tape as mãos; .

quando não possa abrir os braços

e fechá-los depois como as valvas

de uma concha amorosa que defende

seu mistério, sua carne, seu segredo;

quando não possa ouvir abrir

a rosa de seu beijo nem tocar

(meu tato murcho entre a erva hirta)

nem sentir que nasce em mim outro perfume

que lhe responda ao seu,

nem mostrar a suas rosas

a cor das minhas?



E se você chegasse tarde e encontrasse (apenas)

as cinzas gélidas da espera?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DESEJOS



De CARLOS PELLICER
Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira


Para que me deste, ó Trópico,

as mãos tão cheias de cor!

Tudo quanto eu toque

se encherá de sol.

Nas tardes sutis de outras terras

passarei com os meus ruídos de vidro tornassol.

Deixa-me por um instante

deixar de ser grito e cor.

Deixa-me por um instante

mudar o clima do coração,

beber a penumbra de uma coisa deserta,

inclinar-me em silêncio sobre um remoto balcão.

afundar-me no manto de finas dobras,

dispersar-me nas margens duma suave devoção,

afagar docemente as cabeleiras lisas

e escrever com um lápis bem fino a minha meditação.

Oh, deixar de ser um só instante

o ajudante-de-campo do Sol!

Para que me deste, ó Trópico,

as mãos tão cheias de cor!

Deixar de ser: sair



De VÍCTOR SOSA
Tradução: Salomão Sousa


Deixar de ser: sair
Não ser mais o pássaro na rama
nem a rã em sua lama; ser a pedra
de toque voraz, pedra rodada
pelo mundo: canto; não ser
mais a pedra ser a árvore presa
à curva terráquea, árvore
votiva, cheia de pássaros vazia de copa
árvore que fala em sussurros; não ser
mais a árvore ser o fruto
da estação que se anuncia, fruto
do trabalho e fruto proibido
do prazer; por exemplo: essa maçã
no sexo da garota; não ser
mais o fruto ser a garota
que olha na janela, o que olha a garota?
olha as costas da Argélia, olha as Costas do Marfim
olha! ali vai Ulisses; não ser
mais a garota ser Ulisses, ileso
de sereias em sua Ítaca; não ser
mais sua Ítaca ser Minotauro sem medo
e ferir a virilha da moça inglesa
que pode ser Ariadne, que pode ser o pássaro
quetzal ou Quetzalcóaltl, o deus que disse adeus
porque deixar de ser é ser como ele: se passar
por colibri e não se passar pela noiva
não pensar em Esperança quando chegar
a desesperança, e é certo
que a desesperança chega já que é afluente
é dilúvio e é pranto militar; deixar de ser
será desfazer o poema em seu iglu
declinar Juana de Ibarbourou, saudar
sobre a ponte do Brooklyn com a esquerda
e benzer com a direita; será
não dar as horas a César; dar graças
e fechar o serviço.

Deixar de ser: caminhar sobre as águas.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

POESIA VISUAL DE AUGUSTO DE CAMPOS

ÉPOCA DE CRISE

De FABIO MORABITO
Tradução de Antonio Miranda


Este edifício tem
os ladrilhos ocos,
chega-se a saber tudo
sobre os demais,
aprende-se a distinguir
as vozes e os coitos.
Uns aprendem a fingir
que são felizes,
outros que são profundos.
Às vezes algum beijo
dos andares mais altos
se perde nos apartamentos
inferiores,
há que descer para recolhê-lo
“Meu beijo, por favor,
por gentileza”.
“Eu o guardei em papel de jornal”.
Um edifício tem
sua época de ouro,
os anos e o desgaste
o emagrecem,
fazem-no parecer
com a vida que passa.
A arquitetura perde peso
e ganha o costume,
ganha o decoro.
A hierarquia das paredes,
se dissolve,
o teto, o piso, tudo.
Torna-se côncavo
é quando fogem os jovens,
dão a volta ao mundo.
Querem viver em edifícios
virgens,
querem por teto o teto
e por paredes as paredes,
não querem outra índole
de espaço.
Este edifício não satisfaz
ninguém,
está em sua época de crise,
de demoli-lo haveria
que demoli-lo agora
depois vai ser difícil.

NA PRAIA


De FABIO MORABITO
Tradução de Antonio Miranda


O vento, mais
que eu,
fuma este cigarro
entre meus dedos,
deixando-me o prazer
de apenas três ou quatro baforadas,
e o mar desapropria as palavras
que te digo,
porque, deitada, não me ouves.
O sol, o vento e a maré
te ensurdecem
e quando me levanto
para dar dois passos,
vendo meus vestígios que se imprimem
na areia,
penso que minha pegadas mentem,
que já não piso assim desde não sei quando;
sem vestígios de outro
que sobrevive em minhas pegadas, pois as minhas
são bem menos eloqüentes.
Tu, ao contrário, que me vês
Inteiro e indivisível,
sabes melhor que ninguém como sou mortal,
como meus vestígios na areia me descrevem
e como plasma neles o que sou,
Sabes melhor que ninguém como não ouvir-me.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Orelhas


De FABIO MORABITO
Tradução de Antonio Miranda


duas orelhas: uma para ouvir os vivos
outra para ouvir os mortos

as duas abertas dia e noite

as duas fechadas para nossos sonhos



para ouvir o silêncio não tapes as orelhas
ouvirás o sangue que corre por tuas veias



para ouvir o silêncio aguça os ouvidos
escuta-o uma vez não voltes a ouvi-lo



se tapas a orelha esquerda ouvirás o inferno

se tapas a da direita ouvirás... não te digo

havia uma terceira orelha mas não cabia na cara

a ocultamos no peito e começou a latejar



está cercada pela escuridão

é a única orelha que o ar não engana

é a orelha que nos salva de sermos surdos
quando lá encima nos falham as orelhas.

Os cães ladram à distância.


De FABIO MORABITO
Tradução de Antonio Miranda


Junto deles sou
o único sem sonho no planeta.
Ladram para mim,
despertos por minha culpa.

Meu estar desperto os encoleriza
e sua cólera me espanta.
Somos os únicos
que não duvidam
da redondez da terra.
Os demais, os dormidos,
renegaram Copérnico,
por esta única vez
reclinaram-se sobre um mundo plano.
Por esta única vez, todas as noites.
e assim amanhecem,
acreditando que a terra não gira
e eles dormiram em seus lauréis.

Não conseguem conciliar o sonho
sobre uma superfície triste,
sobre um planeta X.
Melhor ouvir ladrar os cães
que amanhecer neolíticos.
Mais vale não fechar o olho
que claudicar pelo mundo.