sexta-feira, 20 de agosto de 2010

DÁ-ME TUA LIBERDADE



De PEDRO SALINAS
Tradução de Salomão Sousa


Dá-me tua liberdade.

Não quero tua fadiga,

não, nem tuas folhas secas,

teu sonho, teus olhos cerrados.

Vem a mim a partir de ti,

não a partir do teu cansaço

de ti; quero senti-la.

Tua liberdade me traz,

assim igual a um vento universal,

um odor de madeira.

remotas de teus móveis,

um monte de visões

que tu vias

quando no alto de tua liberdade

já cerravas os olhos.

Que bela tu livre e de pé!

Se me dás tua liberdade me dás teus anos

brancos, limpos e agudos como dentes,

dás-me o tempo em que a gozavas.

Quero senti-la como sente a água

do porto, pensativa,

nas quilhas imóveis

em alto mar. A turbulência sacra.

Senti-la,

vôo parado,

assim como a quieta várzea

sente a rama

onde vem a ave e pousa,

o ardor de voar, a luta pertinaz

contra as dimensões azuis.

Dencanse-a hoje em mim: vou gozá-la

com um tremular de folha em que descem

gotas do céu ao solo.

Quero-a

para soltá-la, somente.

Não tenho cárcere para ti em meu ser.

Tua liberdade te guarda para mim.

Soltarei-a outra vez, e pelo céu,

pelo mar, pelo tempo,

verei como parte para seu destino.

Se o teu destino sou eu, ele te espera.

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