quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DESEJOS



De CARLOS PELLICER
Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira


Para que me deste, ó Trópico,

as mãos tão cheias de cor!

Tudo quanto eu toque

se encherá de sol.

Nas tardes sutis de outras terras

passarei com os meus ruídos de vidro tornassol.

Deixa-me por um instante

deixar de ser grito e cor.

Deixa-me por um instante

mudar o clima do coração,

beber a penumbra de uma coisa deserta,

inclinar-me em silêncio sobre um remoto balcão.

afundar-me no manto de finas dobras,

dispersar-me nas margens duma suave devoção,

afagar docemente as cabeleiras lisas

e escrever com um lápis bem fino a minha meditação.

Oh, deixar de ser um só instante

o ajudante-de-campo do Sol!

Para que me deste, ó Trópico,

as mãos tão cheias de cor!

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