quarta-feira, 4 de agosto de 2010

ÉPOCA DE CRISE

De FABIO MORABITO
Tradução de Antonio Miranda


Este edifício tem
os ladrilhos ocos,
chega-se a saber tudo
sobre os demais,
aprende-se a distinguir
as vozes e os coitos.
Uns aprendem a fingir
que são felizes,
outros que são profundos.
Às vezes algum beijo
dos andares mais altos
se perde nos apartamentos
inferiores,
há que descer para recolhê-lo
“Meu beijo, por favor,
por gentileza”.
“Eu o guardei em papel de jornal”.
Um edifício tem
sua época de ouro,
os anos e o desgaste
o emagrecem,
fazem-no parecer
com a vida que passa.
A arquitetura perde peso
e ganha o costume,
ganha o decoro.
A hierarquia das paredes,
se dissolve,
o teto, o piso, tudo.
Torna-se côncavo
é quando fogem os jovens,
dão a volta ao mundo.
Querem viver em edifícios
virgens,
querem por teto o teto
e por paredes as paredes,
não querem outra índole
de espaço.
Este edifício não satisfaz
ninguém,
está em sua época de crise,
de demoli-lo haveria
que demoli-lo agora
depois vai ser difícil.

Nenhum comentário:

Postar um comentário