quarta-feira, 18 de agosto de 2010

NÃO TE DETENHAS NUNCA




De PEDRO SALINAS
Tradução de Salomão Sousa


Não te detenhas nunca

quando quiseres me buscar.

Se vês muros de água,

amplas fossas de ar,

cercas de pedra ou tempo,

evita os gritos, passa.

Te espero com um ser

que não espera por outros:

onde eu te espero

só tu cabes. Ninguém

pode se encontrar

ali comigo senão

o corpo que te leva

no ar, como um milagre.

Intacto, inalienável,

um grande espaço branco,

azul, em mim, não aceita

mais que os vôos teus,

os passos de teus pés;

não verão nele

outras marcas jamais.

Se alguma vez me olhares

como preso, fechado

atrás de portas,

entre coisas alheias,

pensa nas torres altas,

nas trêmulas alturas

da árvore, firme nas raízes.

As almas das pedras

que estão embaixo servindo

aguardam na última

ponta da torre.

E ali, pássaros, nuvens,

não se enganam: deixando

que os homens e os dias

pisem embaixo,

se estão ali em cima,

no alto da árvore,

no topo da torre,

certos de que ali,

na última fronteira

de seu ser terreno

é onde se consumam

os amores alegres,

os solitários encontros

da carne e das asas.

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