quarta-feira, 25 de agosto de 2010

OS ABANDONADOS



De Pablo Neruda
Tradução de José Eduardo Degrazia



Não somente o mar, não só costa, espuma,

pássaros de insubmisso poderio,

não só aqueles e estes grandes olhos,

não só a noite em luto com os seus planetas,

não só as árvores com sua alto mansidão,

mas sim a dor, a dor que é o pão do homem.

Mas, por quê? Então naquele tempo eu era

fino feito um fio e bem mais escuro

do que um peixe de águas noturnas, e não pude,

não pude mais, de um golpe quis mudar o mundo.

Pareceu-me estar mordendo a erva mais amarga,

compartir um silêncio manchado de crime.

Mas é na solidão que nascem e morrem coisas,

a razão cresce e cresce até ser desvario,

a pétala se estende sem chegar à rosa,

a solidão é o pó inútil do mundo,

a roda que dá voltas sem terra, nem água, nem homem.

E eu, assim foi como gritei perdido

e que se fez grito sem freio na infância?

Quem ouviu? Que boca respondeu? Que caminhos tomei?

Que responderam

os muros quando batidos por minha cabeça?

Levanta e volta a voz do débil solitário,

gira e gira a roda atroz das desditas,

subiu e voltou aquele grito, e não soube ninguém,

não o souberam nem mesmo os abandonados.

2 comentários:

  1. A imagem é magnífica e o poema profundo. Adorei. Essa postagem me leu. Mil beijos!

    ResponderExcluir
  2. Valeu Majory. Neruda é demais. E viva a poesia!

    ResponderExcluir