quarta-feira, 29 de setembro de 2010

CUBISTA





Lágrimas de bálsamo
Curam minha mágoa
Cântaro quebrado
Sorriso da alma

Olho com desejo
Aquele retrato
Docemente perfeito
O teu eqüilátero

Recolho do chão
A ampulheta espatifada
Pinto um quadro cubista
Da minha vida despedaçada


Tadeu Rocha

terça-feira, 28 de setembro de 2010

SOMBRA NO ESCURO





Céu azul tornou-se cinzento e escureceu
Minha sombra no escuro divaga
Neste devaneio sou entranha da noite
Minhas veias cospem sangue

A solidão desfila nua no quarto
Frases perdidas se encontram na mente
Meus olhos contemplam minha sombra
A saudade morreu na esquina
Agora somos amantes.

Céu negro tornou-se azul
Não cheguei a lugar algum
Minha sombra perdeu-se no sol
A noite deixou sua marca em meu corpo
Solidão! Onde você está?

Tadeu Rocha

domingo, 26 de setembro de 2010

OS TRÊS VENENOS



De CARLOS LÓPEZ DE GREGORI
Tradução de Antonio Miranda



És três, Fulgor,

nesta noite

de espelhos.



Três venenos

ou três flores

com as bocas acesas

ou três afiados corações

trazidos pelo vento,

pelo sonho,

pelo mar.



És três portas abertas

à sombra de uma alcova

que me aguarda desde sempre.

Nela existem degraus

que ninguém sabe se descem ou sobem,

tem três camas, três lençóis volantes

três velas,

três bosques de carne ou de cristal

e três pulsos

e três tormentas

e três ecos

e três mortes.



És três feras de lume.



Três fios que para ver-te não ver-te

costuraram

e descosturaram

minhas pestanas.



Três línguas

abrasadas em minha língua

balbuceando em um idioma impossível

minhas histórias e segredos:

esses que cobram vida

e são amores tristes

que caminham

pelos parques vazios

buscando uma única árvore entre todas as árvores,

porque ali gravarão na sua casca viva

três vezes

mesmo que doa

e doa

e doa



teu nome definitivo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

MAR...



De SANTIAGO RISSO



O mar

roupagem acesa

fulgor de ondas

labaredas

no horizonte

sigilosamente

no estio

poente em mim

frente

ao sol é um

lagarto

que derrama

suas manhãs

revolvendo-se

frente à luz

do tamis

ondeado em quietude

dançando ao vento

Meus olhos

caíram

para sempre

no mar

SOLIDÃO



De SANTIAGO RISSO



A solidão é um estrépito da onda

contra a beira da praia

vem e vai

em um vaivém incansável,

solidão se cultiva em solidão

cresce como erva

até tornar-se bosque indecifrável,

a solidão é areia movediça

que me arrasta ao profundo

um elo interminável

com o peso da vida



A solidão é saber teu nome

e não poder pronunciá-lo

estar aqui, lá como um deus

que cria e está só

um caranguejo na praia

caminha para trás

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

ESTAÇÃO DO CANTO



De EDUARDO MILÁN
Tradução de Eduardo Milán/Claudio Daniel


PÁSSARO é canto


                                                                        Ícaro: queda


pássaro é vôo:


canto e vôo:


plural de pássaro



                                                                        Ícaro: plural


Ícaro é pássaro


porque pássaro em Ícaro é queda


idéia


de asas


lugar do pássaro ou canto que



Ícaro


(água de acordo com)


água não é página:


árido


(página)


árido é



couro


árido agora onde o canto não-


palavras


gesto de inútil


angras


fala baldia



cegos


mãos de não-


vazio de palavras:


não para um índice ou cruz aqui


(de pássaros


giros



longe) 

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

PEQUENO MAPA DO TEMPO



De Belchior


Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração
Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião

Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão

Medo, medo. medo, medo, medo, medo

Eu tenho medo que Belo Horizonte
Eu tenho medo que Minas Gerais
Eu tenho medo que Natal, Vitória
Eu tenho medo Goiânia, Goiás

Eu tenho medo Salvador, Bahia
Eu tenho medo Belém do Pará
Eu tenho medo pai, filho, Espírito Santo, São Paulo
Eu tenho medo eu tenho C eu digo A

Eu tenho medo um Rio, um Porto Alegre, um Recife
Eu tenho medo Paraíba, medo Paranapá
Eu tenho medo Estrela do Norte, paixão, morte é certeza
Medo Fortaleza, medo Ceará

Medo, medo. medo, medo, medo, medo

Eu tenho medo e já aconteceu
Eu tenho medo e inda está por vir
Morre o meu medo e isto não é segredo

Eu mando buscar outro lá no Piauí
Medo, o meu boi morreu, o que será de mim?
Manda buscar outro, maninha, no Piauí

PS.: Música para todos que apreciam as belas composições de Belchior e, especialmente, para Sérgio Martins.

CONHEÇO O MEU LUGAR



De Belchior


O que é que pode fazer o homem comum
neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
a vida comovida,
inteiramente livre e triunfante?

O que é que eu posso fazer
com a minha juventude
quando a máxima saúde hoje
é pretender usar a voz?
O que é que eu posso fazer
um simples cantador das coisas do porão?
Deus fez os cães da rua pra morder vocês
que sob a luz da lua,
os tratam como gente - é claro! - a pontapés.)

Era uma vez um homem e seu tempo...
(Botas de sangue nas roupas de Lorca).
Olho de frente a cara do presente e sei
que vou ouvir a mesma história porca.
Não há motivo para festa: ora esta!
Eu não sei rir à toa!

Fique você com a mente positiva que eu
quero a voz ativa (ela é que é uma boa!)
pois sou uma pessoa.
Esta é minha canoa: eu nela embarco.
Eu sou pessoa!
(A palavra "pessoa" hoje não soa bem -
pouco me importa!)

Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!

Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem:
Conheço o meu lugar! (4x)

domingo, 19 de setembro de 2010

Golden Gate Park



De JUAN CARLOS VÁSQUEZ
Tradução de Antonio Miranda


Quando se recolhem as sombras se levantam

as árvores ante mim e soa o fio do

anoitecer arrasando tudo,

sombras e mais sombras, violentas pausas.



Suavemente a morte sem que a agonia se faça

loucura, na quietude me perturbam palavras,

três dias falando de mulheres e em noite

de montanha todos os fantasmas se lançam

para acurralar-me,



pisadas, murmúrios, flautas e esse ranger

distante que completa com desproporcionados metais

meus tormentos,



suavemente morte sem que a fauna me asfixie,

sem que os turnos me plasmem em suas engrenagens

malditas,



vejo através do cristal a confidência e o

último anúncio em meus olhos rotos.

Cansaço da Poesia



De JUAN CARLOS VÁSQUEZ
Tradução de Antonio Miranda


Não há na poesia

nem em meus mecanismos formas.

posso presumir coisas

pensar no azar

esperando uma surpresa ou um milagre,



dizer o já dito

criar importunando

e ainda assim não deixará o ciclo

de seguir com seu desgaste,



que posso te dizer para deixar

de gritar no absurdo.



Creio cansar-te susurrando fatos,

agitando moscas,

estou fraco e flutuo repetindo

ainda que incendiarei as conexões,

os mesmos cárceres e eu incursionando.



E é que observo a mensagem

sobre a planície

com minha onda de toques,

eu quisera ter prolongado em sua

cara minha razão

mas os murmúrios me colocaram

diante das antigas incógnitas

da superfície.

POEMAS QUE PENSAM QUE SÃO GATOS



De CARLOS TRUJILLO
Tradução de Cristiane Grando


Para Iván Carrasco

Há poemas que pensam que são gatos
E ronronam sob o fogão em tardes de domingo
Enquanto a chuva se desliza pela janela
E as cortinas repletas de figuras detêm a paisagem cinzenta
Como uma fotografia pintada na parede
Em dias de um calendário que já ninguém se lembra
Poemas que parecem esquecer-se do mundo
Quando são vistos adormecidos ao lado do fogo
Enquanto a robusta cozinheira
Recolhe uns pães grandes e deliciosos
Doces como frutas frescas
Da boca de um forno recém criado por Deus.

Há poemas que pensam que são gatos enormes e graciosos
Enquanto se esparramam pelas paredes
E se deslizam sobre os telhados
Curvados e tensos
Como se a presa que perseguem fosse a vida
E essa fosse a única oportunidade de apreendê-la

Há poemas que pensam que são gatos
E vão pela vida com sua aparência de gato
Com seu rabo de gato
Com seu reluzente pelo de gato
E seus prodigiosos olhos de gato sábio
Olhando o profundo e a superfície das coisas
Como se para eles o mistério
Ainda fosse uma ideia sem nome

Também há gatos que pensam que são poemas.

CIRCUNSTÂNCIA



De ARMANDO ALVAREZ PRADO
Tradução de Antonio Miranda



1.

Abro a porta.

Fecho-a.



Não há porta.



Não há entrada.

Não tem saída.





2.

Chego, e digo.

Ninguém me entende.



Parto, e calo.

Ninguém me entende.



As palavras?

O silêncio?



Há outra alternativa?



3.

Uma coisa

e outra e outra.



Todas as coisas.



E eu perdido.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ABRE TODAS AS PORTAS



De LUIS ALBERTO DE CUENCA
Tradução de Antonio Miranda


Abre todas as portas: a que conduz ao ouro,

a que leva ao poder, a que esconde o mistério

do amor; a que oculta o segredo insondável

da felicidade, a que te dá a vida

para sempre no gozo de uma visão sublime.

Abre todas as portas sem que pareças curioso

nem dar importância às manchas de sangue

que salpicam os muros das habitações

proibidas, nem às jóias que revestem os tetos,

nem aos lábios que buscam os teus na sombra,

nem a palavra santa que espreita nos umbrais.

Desesperadamente, civilizadamente,

contendo o riso, secando tuas lágrimas,

no limiar do mundo, no fim do caminho,

ouvindo como cantam os rouxinóis,

não duvides, irmão: abre todas as portas.

Mesmo que nada exista dentro.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

QUESTÃO DE TEMPO



De EDGAR BAYLEY
Tradução de Antonio Miranda



questão de tempo talvez

de andar em trens

de encontrar a luz do sol

a guerra e a paz

o caminho que leva ao irmão

ao inimigo

questão de tempo

a música virá

um tribunal julgará teu medo tua pobreza

e outra manhã de modo diferente

o vagabundo que se perde balbuciando

no idioma que os homens falarão

questão de tempo

colonizadores da tristeza e claridade

em tudo falará o difícil amor

a transparência

mas sempre a vertigem

estenderá sombras sobre as sendas

desvendará céus sobre as vozes e o silêncio

e homens solitários

e mulheres sozinhas

falarão sem amparo

sem encontrar a palavra apropriada

o nome da noite

AS SOMBRAS



De EDGAR BAYLEY
Tradução de Antonio Miranda



deixa que esta noite atinja a margem da água

deixa que a sombra oculte pouco a pouco o mar

êle não interrompe sua ronda

nem faz pausas pelo caminho e segue cantando com teu coração

deixa que esta noite surpreenda nosso eco

e a terra afirme em tua alma

se miras melhor as sombras perderão seu equilíbrio

se abrirão em claridades e a água voltará ao seu curso



se miras muito elas rasgarão suas entranhas

e a aurora sairá do mar

estendendo-nos a mão molhada

e um assovio longo e límpido



então poderemos andar pelos atalhos e os montes

até a noite seguinte

até que se aproximem outra vez as margens da água

os limites do espelho e da lua

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

[Trouxe o sol à poesia]




De João Cabral de Melo Neto



Trouxe o sol à poesia

mas como trazê-lo ao dia?



No papel mineral

qualquer geometria

fecunda a pura flora

que o pensamento cria.



Ora, no rosto que, grave

riso súbito abria,

no andar decidido

que os longes media,



na calma segurança

de quem tudo sabia,

no contacto das coisas

que apenas coisas via,



nova espécie de sol

eu, sem contar, descobria:

não a claridade imóvel

da praia ao meio-dia,



de aérea arquitetura

ou de pura poesia:

mas o oculto calor

que as coisas todas cria.