quarta-feira, 1 de setembro de 2010

[Trouxe o sol à poesia]




De João Cabral de Melo Neto



Trouxe o sol à poesia

mas como trazê-lo ao dia?



No papel mineral

qualquer geometria

fecunda a pura flora

que o pensamento cria.



Ora, no rosto que, grave

riso súbito abria,

no andar decidido

que os longes media,



na calma segurança

de quem tudo sabia,

no contacto das coisas

que apenas coisas via,



nova espécie de sol

eu, sem contar, descobria:

não a claridade imóvel

da praia ao meio-dia,



de aérea arquitetura

ou de pura poesia:

mas o oculto calor

que as coisas todas cria.

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