segunda-feira, 29 de novembro de 2010






A hora do cansaço
De Carlos Drummond de Andrade



As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

domingo, 28 de novembro de 2010

VIVÊNCIA





Em sua casa: intrigas
Na sua vida: confusão
Na estrada: você pedindo carona
No carro: palavras soltas versus tédio
Na chegada: dúvidas
Na noite: o banco da praça substitui a cama
No dia: a força de vontade é o combustível de viver
Na procura: portas fechadas
Os dias são como anos
A carteira jaz vazia
Quando você definha: uma porta se abre!
Sua cama agora é um piso de pensão
Os anos são como dias
Agora você está em seu carro
O jovem não entende
Quando você para e lhe dá carona
A lágrima que cai.


Tadeu Rocha

quinta-feira, 25 de novembro de 2010





A Bruxa
De Carlos Drummond de Andrade



Nesta cidade do Rio
De dois milhões de habitantes
Estou sozinho no quarto
Estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
Anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
Mas é vida. E sinto a Bruxa
Presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
Desses calados, distantes,
Que lêem verso de Horácio
Mas secretamente influem
Na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
E a essa hora tardia
Como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
Que entrasse nesse minuto,
Recebesse esse carinho
Salvasse do aniquilamento
Um minuto e um carinho loucos
Que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes
Quantas mulheres prováveis
Interrogam-se no espelho
Medindo o tempo perdido
Até que venha a manhã
Trazer leite, jornal, calma.
Porém a essa hora vazia
Como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
Conheço vozes de bichos,
Sei os beijos mais violentos,
Viajei, briguei, aprendi
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras

Mas se tento comunicar-me,
O que há é apenas a noite
E uma espantosa solidão

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
Querendo romper a noite
Não é simplesmente a Bruxa.
É antes a confidência
Exalando-se de um homem.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

PULMÕES SEM AR





Arames farpados
Corpos mutilados
Guerras mundiais
Preconceitos banais.

São tantos pulmões sem ar
São tantos caminhos sem direção.

Desce estrela cadente
E vem construir
Nas ruínas dos pensamentos
A catedral do teu sentimento.

Recintos fechados
O medo estampado
O ódio ventilado
E ninguém acordado.

São tantos pulmões sem ar
São tantos caminhos sem direção.


Tadeu Rocha

sexta-feira, 19 de novembro de 2010



De Carlos Drummond de Andrade



Notícias
2009 - NOVA REUNIAO 23 LIVROS DE POESIA - VOL.1



Entre mim e os mortos há o mar
e os telegramas
Há anos que nenhum navio parte
nem chega. Mas sempre os telegramas
frios, duros, sem conforto.

Na praia, e sem poder sair.
Volto, os telegramas vêm comigo.
Não se calam, a casa é pequena
para um homem e tantas notícias.

Vejo-te no escuro, cidade enigmática.
Chamas com urgência, estou paralisado.
De ti para mim, apelos,
de mim para ti, silêncio.
Mas no escuro nos visitamos.

Escuto vocês todos, irmãos sombrios.
No pão, no couro, na superfície
macia das coisas sem raiva,
sinto vozes amigas, recados
furtivos, mensagens em código.

Os telegramas vieram no vento.
Quanto ao sertão, quanta renúncia atravessaram!
Todo homem sozinho devia fazer uma canoa
e remar para onde os telegramas estão chamando.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010






O ENXADRISTA
Para Henrique Costa Mecking



Ele lançou sobre as peças,
Um último olhar em busca de esperança.
Contemplou pensativo seu adversário.
Finalmente ergueu seu rei,
Num movimento lento e triste,
E o deitou suavemente
Sobre o tabuleiro,
Como querendo adiar seu calvário.
Cumprimentou seu oponente
Em sinal de respeito.
Levantou-se
E, com a cabeça baixa,
Seguiu seu caminho.
De volta a sua cidade
Tratou de dizer aos camaradas:
- O tempo não ofuscou sua genialidade.
Mequinho continua Mequinho!


Tadeu Rocha



Nota: Na segunda foto Mequinho, aos 7 anos, enfrenta ao mesmo tempo 20 adversários. Teve seu auge no ano de 1977, quando foi considerado o terceiro melhor jogador do mundo, superado apenas por Anatoly Karpov e Viktor Korchnoi, tendo disputado com o último a final do torneio de candidatos. O enxadrista teve uma doença grave, a miastenia, que compromete seriamente o sistema nervoso e os músculos. A doença fez Mequinho abandonar as competições em 1978. Em 2000, ele voltou a jogar e até hoje é um dos melhores jogadores do País (nas partidas chamadas "relâmpago" ele é ainda insuperável em seu país). Mequinho é um gênio ainda pouco reverenciado.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

FASES





Meus olhos contemplam o botão
O botão sobre a camisa xadrez
De brancas prefiro a inglesa
De negras a siciliana
Por sobre o tablado
Invejo a lua
A vida possui duas fases:
A do encontro
E a do desencontro.


Tadeu Rocha

Nota: Inglesa e Siciliana são aberturas do(a) jogo/arte do xadrez.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sentimento do Mundo





De Carlos Drummond de Andrade



Sentimento do Mundo

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
Eu ficarei sozinho
Desfiando a recordação
do sincero, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite

Os ombros suportam o mundo




De Carlos Drummond de Andrade



Os ombros que suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

domingo, 14 de novembro de 2010

Fuga em azul menor




De Cassiano Ricardo



O meu rosto de terra

ficará aqui mesmo

no mar ou no horizonte.

Ficará defronte

à casa onde morei.

Mas o meu rosto azul,

O meu rosto de viagem,

esse, irá pra onde irei.



Todo o mundo físico

que gorjeia lá fora

não me procure agora.

Embarquei numa nuvem

por um vão de janela

dos meus cinco sentidos.

E que adianta a alegria

dizer que estou presente

com o meu rosto de terra

se não estou em casa?



Inútil insistência.

Cortei em mim a cauda

das formas e das cores.

(A abstração é uma forma

de se inventar a ausência)

e estou longe de mim

nesta viagem abstrata

sem horizonte e fim.



Um dia voltarei

qual pássaro marítimo,

numa tarde bem mansa

à hora do sol posto.

Então, loura criança,

Ouvirás o meu ritmo

e me perguntarás:

quem és tu, pobre ser?

Mas, eu vim de tão longe

e tão azul de rosto

que não me podes ver.



A graça de quem mora

no país da ausência

certo consiste nisto:

ficar azul de rosto

pra não poder ser visto.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

É infinita esta riqueza abandonada





De EDGAR BAYLEY
Tradução de Renato Rezende



esta mão não é a mão nem a pele da tua alegria
no fim das ruas encontras sempre outro céu
atrás do céu há sempre outro gramado praias diversas
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
nunca suponhas que a espuma da aurora se extinguiu
depois do rosto há outro rosto
atrás das pegadas do teu amante há outras pegadas
atrás do canto um novo sussurro se prolonga
e as madrugadas escondem alfabetos inauditos ilhas remotas
sempre será assim
algumas vezes teu sonho acredita ter dito tudo
mas outro sonho se levanta e não é o mesmo
então voltas as mãos ao coração de todos de qualquer um
não és o mesmo não são os mesmos
outros sabem a palavra tu a ignoras
outros sabem esquecer os fatos desnecessários
e levantam o polegar já esqueceram
tu voltarás não importa teu fracasso
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada
e cada gesto cada forma de amor ou de censura
entre as últimas risadas a dor e os inícios
encontrará o vento acre e as estrelas derrotadas
uma máscara de bétula pressagia a visão
tens querido ver
no fundo do dia o tens logrado algumas vezes
o rio chega até os deuses
murmúrios longínquos sobem à claridade do sol
ameaças
esplendor a frio

não esperas nada
a não ser a rota do sol e da pena
nunca terminará é infinita esta riqueza abandonada

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Compartilhando pela segunda vez

Senti uma vontade imensa de publicar novamente esses dois poemas. Aos que já tiveram a oportunidade de ler, sejam tolerantes com esse Poeta Menor e rascunho de blogueiro que sou.





TEOLOGIA DA SECA



Irmão sede
Irmã fome
Teologia da seca
Anjos de ossos
Sem asas
Sem dentes
Seita sem nome

Oásis de caatinga
Missa de cactos
Cacos de esperança
Crença de sequidão

Sertão
Distância menor
Entre a terra e o sol
Assim diz meu cordel
Venha a nós o São Francisco
Como bolero de Ravel.

Tadeu Rocha



TESÃO DA TERRA


O relógio solar
Só marcava meio dia

A terra violentada pelo sol
Revoltada não produzia

O seu amor era o mar
Que pelo céu não descia

O seu tesão era beijo líquido
Que a nuvem não trazia.


Tadeu Rocha

ESTRELA MORTA



De Augusto Frederico Schmidt
Gentilmente enviado por Arsênio Meira Junior



Morta a Estrela que um dia, solitária,

Nasceu em céu sem termo.

Morta a Estrela que floriu nos meus olhos.

Morta a Estrela que olhei na noite erma.

Morta a Estrela que dançou diante dos nossos olhos,

A Estrela que descendo acendeu este amor

Morta a Estrela que foi para o meu coração,

Como a neve para os ninhos

Como o pecado para os santos

Como a ausência de Deus para os condenados.

(Canto da Noite, 1934)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

DESFECHO






Segue o enterro
Um único caixão
Uma única testemunha
Um único luto
Uma única vela
Ora acesa
Quase apagada

Segue o desfecho
De vários anos
De várias alegrias
De vários amores
De várias agonias
De vários sonhos
De várias chamas
Outrora acesas
Agora apagadas


Tadeu Rocha