quinta-feira, 30 de dezembro de 2010




Instante
De Carlos Drummond de Andrade




Uma semente engravidava a tarde.
Era o dia nascendo, em vez da noite.
Perdia amor seu hálito covarde,
e a vida, corcel rubro, dava coice,

mas tão delicioso, que a ferida
no peito transtornado, aceso em festa,
acordava, gravura enlouquecida,
sobre o tempo sem caule, uma promessa.

A manhã sempre-sempre, e dociastutos
eus caçadores a correr, e as presas
num feliz entregar-se, entre soluços.

E que mais, vida eterna me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.

domingo, 26 de dezembro de 2010




Flor que não dura
Fernando Pessoa



Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.



Uma maior solidão
De Fernando Pessoa



Uma maior solidão
Lentamente se aproxima
Do meu triste coração.

Enevoa-se-me o ser
Como um olhar a cegar,
A cegar, a escurecer.

Jazo-me sem nexo, ou fim...
Tanto nada quis de nada,
Que hoje nada o quer de mim.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010





DESMANTELO AZUL
De Carlos Pena Filho



Então pintei de azul os meus sapatos

por não poder de azul pintar as ruas

depois vesti meus gestos insensatos

e colori as minhas mãos e as tuas



Para extinguir de nós o azul ausente

e aprisionar o azul nas coisas gratas

Enfim, nós derramamos simplesmente

azul sobre os vestidos e as gravatas



E afogados em nós nem nos lembramos

que no excesso que havia em nosso espaço

pudesse haver de azul também cansaço



E perdidos no azul nos contemplamos

e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul: azul.

domingo, 19 de dezembro de 2010




A Lição de Poesia
De João Cabral de Melo Neto




1. Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010






A Carlos Drummond de Andrade
De João Cabral de Melo Neto




Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010





IMPROVISO
De Cassiano Ricardo




... Até que um dia,
quando menos se espera,
surge uma casa dentro do sertão
surge outra casa dentro do sertão
surge outra casa uma porção de telhas novas cor
de brasa uma porção de casas.

E uma cidade como caixa de surpresa
listou de branco e de vermelho o silêncio da grota.
Um trem de ferro passa cheio de imigrantes...
(Há em seu apito como um grito de alvorada e de tristeza:
há em toda terra um choro típico de criança,
gosto de lágrimas misturadas com esperança).

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010





Queixa antiga
De Cassiano Ricardo




É uma dor que me dói muito longe...

Dor antiga, separada do corpo.



É uma dor que me dói não sei onde,

meio física, metade celeste.



Um tanto minha, outro tanto da terra.



Veja o galho cortado a uma fronde

e que ainda dá flores sentidas

e que assim à sua árvore responde.



Seu futuro parece o meu passado:

minhas longas raízes ficaram

no chão duro de onde fui arrancado.



(No chão duro onde arroios felizes

ainda cantam pelos vãos do passado)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010



Nota (do blog revistamododeusar):Incluída no lendário “Álbum Branco” dos Beatles, a letra possui uma história curiosa, com seu caráter “colagístico” e de descontinuidade, a montagem de fragmentos de canções, que Lennon uniria naquela que é uma das mais difíceis e enigmáticas do álbum, com sua métrica irregular e constante mudança melódica. Lennon declarou que “Happiness is a warm gun” seria sua “história portátil do rock”, com várias pequenas partes em uma canção de cerca de 3 minutos.



A felicidade é um revólver quente
John Lennon
Tradução de Carlos Drummond de Andrade



Até que essa garota não erra muito
Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo
como lagartixa na vidraça.


O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.


Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver


A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólver quente
lá isso é.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010





A AUSENTE
De Augusto Frederico Schmidt




Os que se vão, vão depressa,
Ontem, ainda, sorria na espreguiçadeira.
Ontem dizia adeus, ainda, da janela.
Ontem vestia, ainda, o vestido tão leve cor-de-rosa.

Os que se vão, vão depressa.
Seus olhos grandes e pretos há pouco brilhavam.
Sua voz doce e firme faz pouco ainda falava,
Suas mãos morenas tinham gestos de bênçãos.
No entanto hoje, na festa, ela não estava.
Nem um vestígio dela, sequer,
Decerto sua lembrança nem chegou, como os convidados —
Alguns, quase todos, indiferentes e desconhecidos.

Os que se vão, vão depressa.
Mais depressa que o s pássaros que passam no céu,
Mais depressa que o próprio tempo,
Mais depressa que a bondade dos homens,
Mais depressa que os trens correndo nas noites escuras,
Mais depressa que a estrela fugitiva
Que mal faz um traço no céu.
Os que se vão, vão depressa.
Só no coração do poeta, que é diferente dos outros corações,
Só no coração sempre ferido do poeta
É que não vão depressa os que se vão>

Ontem ainda sorria na espreguiçadeira,
E o seu coração era grande e infeliz.
Hoje, na festa ela não estava, nem a sua lembrança.
Vão depressa, tão depressa os que se vão...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010





POÉTICA
De Manuel Bandeira




Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente de
protocolo e manifestações de apreço no ar, diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretario de amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneira
de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

sábado, 4 de dezembro de 2010






Belo Belo
De Manuel Bandeira




Belo belo belo,
Tudo tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passsou! - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

ROTINA






Seis horas
José na mesa
Maria no fogão
Café
Beijo ligeiro
Poucas palavras.

Noite
José na cama
Maria também
Amor ligeiro
Nenhuma palavra.

Seis horas
José na mesa
Maria...
...Não sei.


Tadeu Rocha

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010





BODA ESPIRITUAL
De Manuel Bandeira




Tu não estás comigo em momentos escassos:

No pensamento meu, amor, tu vives nua

- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.



O teu ombro no meu, ávido, se insinua.

Pende a tua cabeça. Eu amacio-a ... Afago-a ...

Ah, como a minha mão treme ... Como ela é tua ...



Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.

O teu corpo crispado alucina. De escorço

O vejo estremecer como uma sombra n'água.



Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.

E para amortecer teu ardente desejo

Estendo longamente a mão pelo teu dorso ...



Tua boca sem voz implora em um arquejo.

Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto

A maravilha astral dessa nudez sem pejo ...



E te amo como se ama um passarinho morto.

CÉU NEGRO






É noite e a lua tarda em aparecer
As estrelas gritam no céu negro
E a lua ainda não apareceu.

O riacho que corre ao lado é podre
A vegetação é feia e silenciosa
A noite em si é mistério
E meus olhos ainda procuram a lua.

O céu negro provoca-me
Parece guardar tantos segredos
As estrelas teimam em falar de você
E meus pensamentos se confundem
Enquanto meus olhos contemplam a lua ausente.

A noite sem luar é perversa
O riacho podre corre com sacrifício
A vegetação não fala
O céu negro desapareceu
A magia da noite se perde na manhã
E quem aparece é o sol.


Tadeu Rocha

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010




DESENCANTO
De Manuel Bandeira




Eu faço versos como quem chora

De desalento ... de desencanto ...

Fecha o meu livro, se por agora

Não tens motivo nenhum de pranto.



Meu verso é sangue. Volúpia ardente ...

Tristeza esparsa ... remorso vão ...

Dói-me nas veias. Amargo e quente,

Cai, gota a gota, do coração.



E nestes versos de angústia rouca

Assim dos lábios a vida corre,

Deixando um acre sabor na boca.



- Eu faço versos como quem morre.