quinta-feira, 2 de dezembro de 2010





BODA ESPIRITUAL
De Manuel Bandeira




Tu não estás comigo em momentos escassos:

No pensamento meu, amor, tu vives nua

- Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.



O teu ombro no meu, ávido, se insinua.

Pende a tua cabeça. Eu amacio-a ... Afago-a ...

Ah, como a minha mão treme ... Como ela é tua ...



Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.

O teu corpo crispado alucina. De escorço

O vejo estremecer como uma sombra n'água.



Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.

E para amortecer teu ardente desejo

Estendo longamente a mão pelo teu dorso ...



Tua boca sem voz implora em um arquejo.

Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto

A maravilha astral dessa nudez sem pejo ...



E te amo como se ama um passarinho morto.

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