quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

quinta-feira, 13 de outubro de 2011




Copo Vazio
Chico Buarque


É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.
É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.
Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

sexta-feira, 7 de outubro de 2011



Metamorfose


Versos nos varais
Vento sopra Vivaldi
Dança da chuva
Fuga do sol

Nuvens cantam liberdade
Versos gotejam
Freneticamente
Travessia
Do varal ao chão

Semente
Árvore que cresce
Folhas bailam ao vento
Fruto que nasce
Varal vazio
Transformação

Tadeu Rocha

domingo, 2 de outubro de 2011

Devaneio




As folhas deitavam suavemente no asfalto da Rua Osvaldo Cruz. Pensamentos se confundiam na cabeça do jovem José. Seus pés queriam parar, mas a sua mente ordenava que continuassem. Seu devaneio seria o cano de escape que aliviaria sua tensão.

As folhas continuavam a cair. O vento passeava em forma de brisa. Ali estava! À sua frente surgia o hospital. Queria voltar. Não conseguia. Queria gritar. As pessoas que passavam sufocavam seu grito. Seus olhos alcançavam todo o prédio. O hospital lhe trazia o passado. Lembranças... Alguém! Morte! Dor! Devaneio!

Um amigo o reconhece. Grita seu nome! José corre! Não sabe por quê. Talvez seja a loucura que lhe impulsionava a correr. Novamente escuta seu nome. Não para! A Conde da Boa Vista o recebe. Um choque! Um grito! Não existem mais pensamentos. Contudo as folhas, indiferentes, continuam a cair no asfalto.

Tadeu Rocha

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Magna transborda poesia e generosidade





Na jaqueira, poetas soltam flamas com as línguas.
Sorrisos e lágrimas se misturam em nome da poesia.
Na Jaqueira, um certo Carlos Maia acreditou perante as flores
E jurou, Em nome do bem-te-vi, que nunca desistiria.
Nos céus da Jaqueira, do Recife,
Novas estrelas nasceram só para verem os poetas.
Só para verem.
E viram!

Magna Santos

A revolução que se faz sem poesia, não é revolução, é palavra morta. Por isso que até hoje só um Revolucionário sobrevive, apesar dos 2 mil anos passados.

Magna

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Os revolucionários





No teatro Guararapes
Os Beatles dividem o palco com Chico Science e Nação Zumbi
A procura de um novo som
Estranha e deliciosa mistura entre besouros e caranguejos

Na Olinda das catedrais
Em um culto ecumênico
Disfarçados no último banco
Freud e Darwin elaboram novas teorias
Enquanto Lutero prega suas novas ideias
Nas portas dos templos

Longe do olhar intrometido de Keynes
Na praça 13 de maio
Marx e Lenin jogam xadrez
Tramando uma nova revolução

No teatro Santa Isabel
Numa semana de arte pós_ moderna
Os Andrades, Bandeira, Cassiano e Cabral
Fazem o mundo tremer
Cubistas, dadaístas e surrealistas
Ainda chegam de todos os cantos
Como será a nova poesia?

Tadeu Rocha

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Domingos Sávio: Talento!




Os rios vão prateando suas curvas
com os faróis que nas ruas servem de alento aos solitários
As praças vão ficando sozinhas,
com suas árvores respirando conforto
pela ausência dos homens.
As ruas vão ficando mudas em conversas imagináveis
com os sinais de trânsito,
abertos ao nada e a ninguém.

Domingos Sávio

Carlos Maia: Talento!




A realidade que eu vejo
Não serve para explicar
O que eu sinto.
Quero um milhão de sóis
De Van Gogh
A brilhar entre os corvos
Quero luas girando
Num campo de trigo
Quero a mais louca
Paz
De quem descobriu
Sua essência.
Num mundo de robóticos
E que só dizem
Sim
Eu quero ser
A placa de contramão!

Carlos Maia

Geraldo Maia: Talento!

sábado, 17 de setembro de 2011

Carlos Maia Convida!




Recital "Poetas aniversariantes do mês"

No dia 24 deste mês, um sábado,
a partir das 16 h,
haverá um recital poético
no Parque da Jaqueira
(entrada principal para
nos reunirmos,
depois escolheremos
um local mais bucólico
entre as flores e os pássaros).
Serão homenageados
os poetas que fazem
aniversário este mês (1/2 hora)
e depois mais 1/2 hora livre.
Já está confirmada a presença
do grupo de poesia
"O Grito"
(Aldo lins, Carlos Maia, José Evangelista,
Pollyanne, Carlos Ivan Almeida, Gizele Tavares e Aline Silva)
Confirmada a presença também dos poetas Domingos Sávio,
Tadeu Rocha, João Carlos de Mendonça, Arsênio Meira Filho,
Edgar Mattos, André Gustavo, Luciana Cavalcanti e
Bernadete Bruto.

Carlos Maia


Em Tempo

De tanto esmurrar o vento
Sangrei os meus punhos, perplexo!
Mas o verdadeiro absurdo
É estar partindo sem você

Se hoje a aventura nos parece comédia
Amanhã a saudade nos tece um drama
- Motorista! Esqueça o aeroporto...

Tadeu Rocha

PS: Sonhei declamando este poema. Não sou de declamar e nunca havia sonhado com um poema meu. Por isso resolvi publicá-lo novamente.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Poema de Murilo Mendes





Murilograma a Graciliano Ramos

1

Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,

Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,

Desacontece, desquer.

2

Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro

Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.

Tachando a flor de feroz.

3

Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,

Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)

Ao limite irrespirável.

4

Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,

Seu passo trágico escreve
A épica real do BR

Que desintegrado explode.

(Roma, 1963)


Ps: A Primeira foto é de Murilo Mendes e a segunda de Graciliano Ramos

sábado, 10 de setembro de 2011



Em 26 de agosto de 2008, uma semente brotou. Nasceu o blog Sementeiras, que este ano completou seu terceiro aniversário. Ainda que tardiamente(embora nunca seja tarde para comemorar com os amigos), presto uma homenagem publicando o primeiro poema do Sementeiras. Parabéns Magna.


Aprendiz

Ah, um dia de semente é tudo o que se quer...
Terra molhada
Sol a aquecer
Tempo a trabalhar

Deveras o tempo nos ajuda
É fato
Deveras ele nos atrapalha
Quando queremos

Há tanto a se aprender
E muito a se calar...
Como uma verdadeira semente

E assim ficarei nesta sementeira
Criada em dia de lua
E noite de vento

Sou aprendiz
Neste espaço que ainda desconheço
Mas experimento
Sem pretensão

Em meio ao plural
Me singularizo
Sacudo minhas mãos
E torno a sujá-las
Graças a Deus
Que Ele me ensine, então, mais uma vez.

Obrigada, Senhor, por tudo
E abençoe a todos que por aqui passarem.

Magna Santos

segunda-feira, 22 de agosto de 2011



Poema sem ré menor


Da noite recolheu-se a lua
Dos navios recolheram-se os canhões
Nos meus braços recolheu-se nua
A musa de minhas canções

Tadeu Rocha

PS do título: Segundo a Wikipédia, "como todas as tonalidades menores, a sensação principal é mais escura que a que correspondente à tonalidade maior. Desde a Antiguidade, esta tonalidade é reconhecida como a tonalidade da tristeza e pesar."

PS2: Retirou-se a lua. Ficaram as estrelas!

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Feliz Aniversário Arsênio

Cortar o tempo

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 3 de agosto de 2011



Alegria


A inspiração puxou a cadeira
E bebeu comigo
Sem olhar para o relógio
[Há tanto sentimento
Destilando dentro do peito]
- Que os outros poetas esperassem!

Há momentos
Em que a melancolia
Desiste de nossa companhia
- E surge como fênix a nossa alegria

A inspiração me sorriu
Ofertou-me mil versos
Eu sorri para a inspiração
Olhei para o meu filho
Recém-nascido
A inspiração entendeu
Beijou seus olhos
Tentou se despedir
- Mas não partiu

Tadeu Rocha

Belchior - Na Hora do Almoço

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Belchior - Divina Comédia Humana



Ouvir Estrelas
De Olavo Bilac



"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."


As Sem-razões do Amor
De Carlos Drummond de Andrade


Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

quinta-feira, 23 de junho de 2011



A esperança. Só a esperança, nada mais.
Chega-se um ponto, em que não há mais nada senão ela...
É então que descobrimos que ainda temos tudo.

José Saramago


Cai um silêncio de ondas longas
e sucessivas como a chuva.
E que silêncio será esse
que cai assim antes de mim?
Fauna marinha, gestos lentos
de anjos calados golpeando
um polvo em fúria que me espera
(sob os sonhos). Há quanto tempo?
Poucos amigos, tudo salvo,
ainda temos nossas raivas
e uma esperança ilimitada
nos setembros. Mas, até quando?
Caem livros silenciosos
das prateleiras: baixa a luz
morna e abundante sobre as capas.
Que foi feito de tanta noite?
A esperança nova se agarra
entre as barreiras e as ossadas
de nossos morros. E por que
morremos antes de salvá-la?

ALBERTO DA CUNHA MELO

sábado, 18 de junho de 2011




O COLECIONADOR DO IMPOSSÍVEL
Para os amigos Abimael Lages e Carlos Maia


A vegetação não era rica, devastada pelas queimadas por parte de uns pequenos agricultores de subsistência e, também, pelo desmatamento clandestino – bastante comum naquela região.
A estrada não pavimentada, há pouco coberta pela noite, recebia agora toda a luminosidade daquele sol nordestino. Felipe, dirigindo a caminhonete, pensava agora no Ancião. Estaria ele vivo? Esperava que sim. Aquele velho de estranhas manias, significava muito para ele.
Os pensamentos de Felipe desviaram-se para o motivo que o trazia mais uma vez a sua cidade natal. Seus pais morreram há vinte anos, em uma data não muito comum em nossos calendários: 29 de fevereiro. E era somente no ano bissexto, precisamente nesta data, que ele regressava para subir o cruzeiro, e viver um momento de dor, reflexão e flores.
Os pneus da caminhonete tocavam finalmente o asfalto da cidade. Seus olhos já deveriam ter contemplado alguém. Em vez disso, surgiam a sua frente ruas vazias; casas desprovidas de qualquer sinal de vida. Não pôde evitar o pensamento: “ Será que todos subiram pela última vez o cruzeiro; corpos adormecidos sob a terra, porém ao mesmo tempo tão próximos do céu”?
Mal acabara de concluir seu devaneio, seus olhos vislumbraram uma figura conhecida. Expeliu toda tensão em um imenso sorriso, ao mesmo tempo em que acionou a buzina do carro. O vulto a sua frente dirigiu-lhe o olhar. O mesmo olhar de uma força que chegava a incomodar; a mesma força que, somada a de seu avô, ajudou a construir aquela cidade. Homem de grande sabedoria, velho de estranhas manias. A mais conhecida era a de distribuir apelidos. Todos na cidade foram batizados pelo velho, que nem a si próprio deixou escapar, denominando-se Ancião. E era por este nome, que Felipe o trataria:
- Onde está todo mundo? O que aconteceu Ancião?
- Eu estava esperando por você Bissexto. Quanto aos outros, estão logo adiante, despedindo-se do Colecionador.
Naquele instante Felipe revirou os arquivos de sua memória. Não conhecia ninguém daquele lugar que houvesse sido batizado pelo Ancião com aquele nome. Sabia que o homem a sua frente se divertia com sua surpresa e curiosidade. Também sabia que o mesmo só revelaria alguma coisa se fosse indagado. Estranho toda a cidade se reunir para despedir-se de uma única pessoa.
-Esta bem! Está bem!! Quem é esse Colecionador?
-Trata-se de um missionário. Chegou logo após a sua última visita. Ele coleciona o impossível.
- O senhor poderia ser mais claro?
- Em um de seus sermões, o missionário afirmou que para Deus nada é impossível. E para o homem? Bem sabemos que o ser humano possui suas limitações. Há pessoas que você não precisa conhecer por muito tempo para saber que elas jamais conseguiriam ser de outra maneira. Para elas a mudança é impossível. Assim como as folhas secas deitadas sobre a margem não acompanham o ciclo das águas, muitas dessas pessoas não acompanham o desenvolvimento da sociedade.
Contudo nem todo aquele que precisa mudar e não muda é filho do desequilíbrio social. Lembra-se do Dr. Ateu? Claro que se lembra! Agora ele não merece mais esse vulgo. Preciso arrumar outro. Tarefa extremamente difícil para mim. A velhice possui essa desvantagem: afeta nosso poder criativo. Do que eu estava falando? Sim...o Dr. Ex Ateu ou ex Dr. Ateu, não importa, agora faz parte da nova igreja. Todos fazem! Quantos nomes a serem mudados!! Imagine, logo o Dr...
Como vê o missionário têm predileção por casos perdidos. O Dr liderou a oposição ao trabalho do Colecionador. Eu próprio, contribui com várias sugestões. Hoje ele faz parte de uma coleção. Uma verdadeira galeria de casos impossíveis. Lembro-me da última conversa que tive com o ex Ateu. Não esqueço suas palavras:
- “Jesus Cristo substituiu a chama das minhas angústias pelo sol da salvação, cujos raios de felicidade atravessaram as barreiras da minha epiderme, invadindo veias... sangue novo a correr, desaguando vida em um coração, agora, rejuvenescido”.
Poético sem dúvida. Também profundo. Não nego. Quanto a mim, estou me dirigindo ao último sermão. Felipe boquiaberto escutara atento o relato do Ancião. Misturavam-se agora a grande multidão. As prostitutas de outrora, pareciam verdadeiras damas. Barril estava esquisito sem a garrafa de pinga; barba feita ; vestido de terno e gravata. E o responsável por tudo aquilo, seguia firme em sua pregação. Um simples amém deu por encerrada a oratória.
E Felipe não acreditou quando a mão do velho Bartolomeu atendeu ao convite do missionário, que imediatamente dirigiu-se ao seu encontro. Lágrimas! Sorrisos! Um grande sorriso. Sorriso infantil. O Colecionador pareceu, aos olhos de Felipe, um menino ao conseguir a peça mais valiosa de sua coleção. Não pôde deixar de compartilhar do seu sorriso. Havia no ar muitas emoções que precisavam ser destiladas. Felipe consultou o relógio, ciente de que o cruzeiro haveria de esperar mais um pouco.

Tadeu Rocha

PS1: O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons. (Martin Luther King)
PS2: Martin Luther King era um Colecionador do Impossível.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Aniversário de Fernando Pessoa



Fernando Pessoa - MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Ps: Obrigado Magna pela lembrança.

sábado, 11 de junho de 2011



Soprando No Vento (Blowin' In The Wind)
De Bob Dylan


Quantas estradas precisará um homem andar
Antes que possam chamá-lo de um homem?
Quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar,
Antes que ela possa dormir na areia?
Sim e quantas vezes precisará balas de canhão voar,
Até serem para sempre abandonadas?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

Sim e quantos anos pode existir uma montanha
Antes que ela seja lavada pelo mar?
Sim e quantos anos podem algumas pessoas existir,
Até que sejam permitidas a serem livres?
Sim e quantas vezes pode um homem virar sua cabeça,
E fingir que ele simplesmente não vê?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

Sim e quantas vezes precisará um homem olhar para cima
Antes que ele possa ver o céu?
Sim e quantas orelhas precisará ter um homem,
Antes que ele possa ouvir as pessoas chorarem?
Sim e quantas mortes ele causará até ele saber
Que muitas pessoas morreram?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dri alertou para o vídeo e eu resolvi compartilhar. Valeu minha amada pela dica!

segunda-feira, 6 de junho de 2011



TORTO


Confusão! Era tudo o que ele sabia fazer. O chamavam de Torto. Era assim que era conhecido o malandro. Dizem que ele nasceu com as pernas tortas só para não sentar praça. Só de pirraça o fizeram servir. Mas não durou muito. Sua presença minava o quartel.
Numa noite em que os rapazes cismavam em contar vantagens, ou seja, “mentiras das grandes”, lá estava o Torto. Cheio de ginga começou a falar – bom orador aquele peralta. Conseguiu conquistar a atenção de todos, embora duvide que qualquer um tenha acreditado naquela estória cheia de mulheres bonitas, tiroteio, perseguições e tudo o mais. Contudo era maravilhoso ouvir aquelas aventuras que sempre povoaram os sonhos de todos os malandros. Afinal dos presentes encontrava-se pelo menos uma pessoa que não desejasse ser o rei da malandragem? Claro que não. Todos queriam sê-lo. Ainda que a maioria não conseguisse ser mais do que capangas, pequenos cafetões ou traficantes sem peso.
Destino diferente teve o Torto. Meses depois daquela noite virou cafetão. Minas e mais minas se chegavam a ele ou ele a elas. Depois uma boca de fumo. Tráfico de cocaína seguida do domínio das jogatinas, com cassinos espalhados por toda cidade.
O que antes era mentira para impressionar seus colegas, agora era sua vida. Em suas fantasias sempre conseguia se safar, como por mágica. Pena que os milagres na realidade não sejam tão frequentes e as balas que vararam seu coração não se transformaram em flores.

Tadeu Rocha

PS1: Esse texto surgiu após a leitura dos contos de João Antonio (excelente contista).

PS2: "João Antonio cria uma espécie de normalidade do socialmente anormal, fazendo que os habitantes de sua noite deixem de ser excrescências e se tornem carne da mesma massa de que é feita a nossa. O seu submundo é um mundo como outros." Antonio Cândido.

quinta-feira, 26 de maio de 2011




De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda adeitada,
na praia, te parecias

Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na praia cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,

e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

João Cabral de Melo Neto

domingo, 22 de maio de 2011



O céu parece revestido
de uma camada de cimento:
deixo as marquises porque sei
que esta chuva não passará.
Se esperasse um tempo de paz,
nem meu túmulo construiria.
Começo e recomeço a casa
de papelão em pleno inverno.
Um plano, um programa de ação
debaixo de uma árvore em prantos,
e voltar à primeira página
branca e ferida pela pressa.
A poesia já não seduz
a quem mais forte ultrapassou-a,
libertando um pouco de vida
e luz, da corrente de estrelas.
Toda renúncia nos convida
a recomeçar outra busca,
porque algo a inocência perdeu
no chão, para arrastar-se assim.


ALBERTO DA CUNHA MELO

terça-feira, 17 de maio de 2011



Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.
Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.
Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.
É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.
Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.


ALBERTO DA CUNHA MELO

sexta-feira, 13 de maio de 2011




moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia


Paulo Leminski

segunda-feira, 9 de maio de 2011



SONATA PATÉTICA
De Cassiano Ricardo

I

O meu rosto do retrat,
jovem, e por minha mãe
colocado na parede
deste quarto, onde hoje moro,
fica defronte ao do espelho.

O do espelho nem parece
ser o eu mesmo do retrato.
De tão triste: Diferente.
Parece mais um parente
corroído por muitos danos
mas ainda vivo, chegado
de uma viagem de trinta anos.

Como pude morrer tanto,
mudar de cor, e de fato,
sem um grito, sem um ai
entre um espelho e um retrato?
Só perguntando a meu pai.

Na hora, não senti nada...
Agora não me conformo
com a rude metamorfose
que me deixou sua marca.
Que me saqueou de mansinho,
me pôs nu diante do espelho
piando como um passarinho.
Como se a vida não fosse
Já tão magra, já tão parca.
Que fada exigente, má,
pediu meu rosto ao tetrarca?

Só mesmo a gente se rindo.

Rio-me desapontado,
por ver que já não adianta
chorar, se tudo está findo.

E vou do espelho ao retrato
(de cabelo repartido)
e do retrato ao espelho
(caco de espelho partido)
com qual dos dois me assemelho?
Lá fora dançam as árvores
no crepúsculo vermelho...


II

Tempo abutre pernilongo
ficou tocando violino
enquanto chupa meu sangue
em noite de serenata.

Bebeu água nos meus olhos .
Me depenou. Arrancou-me
penas do corpo e das asas.
E voa com minhas penas.
E leva, agora, o meu rosto
Para o lado do sol-posto.

Em cada passo que dou,
hoje, entre o espelho e o retrato,
já eu próprio me divido.
enquanto um pé é futuro
o outro já foi pro olvido.
E, sem sentir coisa alguma
(pois raramente me ajoelho)
vou andando, dividido,
meio anjo, meio bicho,
entre os dois: retrato e espelho.

Vou andando, repartido
entre o poeta do retrato
e o filósofo do espelho.
Entre o meu rosto, já ausente,
e o eu, de corpo presente.

Na hora não senti nada.
Não é nada... não é nada...
Depois é que sinto o estrago.
O tempo passou, num trago,
me depenou e, com as minhas
penas fez as suas asas.
Quando ouvi seu passo duro
_ pois caminho pro futuro
com o calcanhar para o oeste_
já ele ia pro sol-posto
onde enterrará o meu rosto.
Eu vejo tudo no espelho.
Chovem brasas! chovem brasas!

Só mesmo a gente se rindo
Sobre o espetáculo findo.
Lá fora as árvores dançam
no crepúsculo vermelho...


III

“O que me abisma, entretanto,
nesta grande tarde rubra,
já não é o eu haver sido
apedrejado em silêncio
por um secreto inimigo
que deve morar comigo
sem que eu, jamais, o descubra.
Já não é a bofetada
que o tempo, em câmara lenta,
me aplicou, não senti nada.
Já não é o terremoto
em meu chão de carne e osso,
sem registro no sismógrafo,
que passou, não senti nada.
O que me abisma, inda agora,
não é a distância que vai
entre o meu rosto do espelho
e o meu rosto do retrato.
É o tempo, o tempo que mói,
no céu, as próprias estrelas,
como uma farinha de ouro;
é o tempo, o tempo que rói
até o rosto dos retratos;
é o tempo que nos destrói
tudo, tudo-tudo-tudo,
nem de leve me haver doído.
Isto agora é que me dói.
Este, o insulto que revido.
Como pude morrer tanto,
e tanto, sem me haver doído?”

(Só mesmo achando engraçado
o que já triste, bem triste.)
E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho:
“Como é que uma bofetada
não me doeu, cruel, imensa,
no momento de ter doído?
Pra que eu tivesse reagido
na hora, à altura da ofensa?
Pois não senti a bofetada...
Isto agora é que me dói.”

“Que anestésico celeste
terá usado o vil abutre
que subverteu, em trinta anos,
toda minha geografia?
Comeu rosas, deixou cravos
no chão de tanto desgosto
que hoje é o mapa do meu rosto?
E tudo tão sem rumor,
Tudo tão sem me haver doído
que não lhe senti a bicada?
Este, o ponto que revido.
Isto agora é que me dói”

“Como hoje curar feridas
assim, retroativamente,
na máquina de costura
se as pedras, que a mão oculta
me arremessou, foram mudas?
Se não lhe senti a pedrada?
Isto agora é que me dói.”
E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho:
“Quero encontrar o agressor,
mas como? Ele está escondido
no curto espaço que vai
entre um espelho e um retrato.
A quem, pois, pedir conselho?
Ele ficou dividido
Entre os dois: retrato e espelho.
Quero caça-lo, não posso.
Sua boca é de um minuto
escondido sob as asas
mas ele tem cara grande
não cabe em fotografia.
Tem dois rostos, do tamanho,
Um, da noite, outro do dia.”
(E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho.)

“Uma coisinha de nada
dos solavancos em meio
arranhadura no dedo
picada de azul piranha
mordida de pernilongo
queda durante o passeio
feridazinha singela
no ato de abrir a janela,
já me obriga a fazer feio.
Como, pois, poderei eu
aceitar (eu, o agredido)
uma dor que não me doeu
no momento de ter doído?
Não é justo, não é honesto.
Contra isto é que protesto.
Tudo perdido, inclusive
Minha vocação para herói:
Isto agora é que mais dói!”
E rio-me sem querer.

Pois não me resta outra coisa
(por não ter sentido nada)
À hora do necrológio
senão me rir do que é triste
e... consultar o relógio.

sábado, 7 de maio de 2011



NÃO SOU O HERÓI DO DIA
De Cassiano Ricardo
Petardo gentilmente enviado por Arsenio


Não sou o herói do dia.
A vida me obrigou
a comparecer, sem convite, ao banquete,
em que me vejo, agora, erguendo a taça,
não sei a quem.
Soldado que lutou sem querer, por força
do original pecado, e em cujo peito não fulgura,
até hoje, nenhuma
condecoração.

Não sou o herói do dia. Passei pela vida
como quem passa
por um jardim público, onde há uma rosa proibida
por edital.
A rosa de ninguém, a rosa anónima
que aparece jogada sobre o túmulo
do desconhecido, todas as manhãs.

É bem verdade que, em menino, eu possuía uma banda de música
que tocava no circo, acompanhava enterro,
que tomava parte em procissão de encontro
e nos triunfos da legalidade.
Hoje, porém, - pergunto -, onde o pitão, o bombardino, o saxofone, a flauta, a clarineta,
os instrumentos todos
dessa banda de música?
Todos quebrados, os respectivos músicos caídos
num só horizonte.
Minha banda de música, se existe,
é agora
de homens descalços e instrumentos mudos.

Não sou o herói do dia.

Ah, o silêncio
de alguns amigos que deviam falar e não falam.
O grande silêncio
da banda de música que devia tocar e não toca.
O silêncio espantoso
de quem devia estar gritando
desesperadamente, e ficou quieto.
E ficou quieto, sem explicação.
Maestro, não é hora de tocar-se o hino nacional?

Ah, positivamente,
não sou o herói do dia...

sexta-feira, 6 de maio de 2011



Poema gentilmente enviado por Arsenio em abril:


"IRMANDADE

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra."

Octavio Paz


O EU MAIOR
De Gibran Kahlil Gibran
(Texto gentilmente enviado por Magna Santos em março)


Isto veio a acontecer. Após a sua coroação, Nufsibaal, Rei de Biblos, se recolheu ao seu quarto de dormir - o próprio quarto que os três eremitas-mágicos da montanha tinham construído para ele. Tirou a coroa e os trajes reais, e ficou de pé no meio do quarto pensando em si mesmo, agora o todo-poderoso governante de Biblos.
Subitamente voltou-se; e viu um homem nu sair do espelho de prata que sua mãe lhe dera.
O Rei ficou assombrado, e gritou para o homem: "Que queres?"
E o homem nu respondeu: "Nada senão uma resposta: Por que te coroaram Rei?"
E o Rei respondeu: "Porque sou o homem mais nobre do reino."
Então, o homem nu disse: "Se fosses ainda mais nobre, não poderias ser Rei."
E o Rei disse: "Porque sou o homem mais poderoso, coroaram-me Rei."
E o homem nu disse: "Se fosses ainda mais poderoso, não poderias ser Rei."
Então o Rei disse: "Porque sou o homem mais sábio, coroaram-me Rei."
E o homem nu disse: "Se fosses ainda mais sábio, não escolherias ser Rei."
Então, o Rei caiu no chão e chorou amargamente.
O homem nu baixou a vista para ele. Depois, tomou a coroa e, com ternura, recolocou-a na fronte curvada do Rei.
E o homem nu, olhando amorosamente para o Rei, reentrou no espelho.
E o Rei se levantou, e olhou para a espelho. E só se viu a si próprio, coroado.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Flor da Idade - Chico Buarque




PS:

Quadrilha
(Carlos Drummond de Andrade)

João amava Tereza que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Tereza para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


Acordar, Viver
De Carlos Drummond de Andrade


Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea

terça-feira, 26 de abril de 2011



MEUS VERSOS


Não há profundidade em meus versos
Quem procura um poema que seja mar ou rio
Deve buscar em outros poetas
Meus versos são rasos

Em pé jamais alguém se afogará em minha poesia
Será preciso deitar-se sobre o poema
Para que os versos inundem sua alma

Não há profundidade em meus versos
Mas neles me afogo a cada dia


Tadeu Rocha

segunda-feira, 25 de abril de 2011



O ACUSADO
De Cassiano Ricardo


Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia
de chorar, me vinham de outros olhos.

Já o sangue que caminha em minhas veias pro futuro
era um rio.

Quando eu nasci já as estrelas estavam em seus lugares
Definitivamente
Sem que eu lhes pudesse, ao menos, pedir que
influíssem
desta ou daquela forma, em meu destino.

Eu era o irmão de tudo: ainda agora sinto a nostalgia
do azul severo, dramático e unânime.
Sal — parentesco da água do oceano com a dos meus
olhos,
na explicação da minha origem.

Quando nasci, já havia o signo do zodíaco.

Só o meu rosto, este meu frágil rosto é que não existia
quando eu nasci.

Este rosto que é meu, mas não por causa dos retratos
ou dos espelhos.

Este rosto que é meu, porque é nele
que o destino me dói como uma bofetada.
Porque nele estou nu, originalmente.
Porque tudo o que faço se parece comigo.
Porque é com ele que entro no espetáculo.
Porque os pássaros fogem de mim, se o descubro
ou vêm pousar em mim quando eu o escondo.


“É TARDE, É MUITO TARDE”
De Cassiano Ricardo


I

Todas as horas se
resumem num minuto.
Os pés me ficam juntos,
conciliados.
Todos os meus caminhos
se encontram em um só.
E eu fico nu de tempo,
nu de espaço.

Fico sendo eu, só eu.

Então aceito a hora,
a única entre todas
no mundo coletivo
que só seria minha.
Terrivelmente minha.
Mais que a de haver nascido.
Mais que a do amor.

Atravesso o horizonte
dos meus pés com a terra.
A minha própria noite.
O meu auto-retrato.

Fico sendo eu, só eu.
Vejam bem que sou eu.
Mas agora já é tarde



II

Gastei o meu futuro
em coisas que não fiz.

A tarde é quase humana
quando em mim pousa. A tarde
atrozmente enfeitada
de cores, ainda arde;
porém, já não me engana.
É tarde. É muito tarde.

Só haveria um remédio.
Era o de ter prestado
mais atenção à vida.
Era eu ter consultado
mais vezes o relógio
Era o eu ter querido
mais a ti do que quis.

Mas gastei meu futuro
em coisas que não fiz.
É tarde. É muito tarde.

sexta-feira, 22 de abril de 2011



CARTAS A UM JOVEM POETA

"PRIMEIRA CARTA"



" Paris, 17 de Fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.

(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke"

Esta Primeira Carta do livro "Cartas a um jovem poeta",
foi traduzida por Cecília Meireles, retirados da edição :
"Cartas a um jovem poeta e Canção de Amor e morte
do porta-estandarte Cristovão Rilke", Editora Globo, 1983.
O jovem poeta em questão chama-se Frans Xaver Kappus.


Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
De Rainer Maria Rilke
Tradução: Paulo Plínio Abreu


Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.


Hora Grave
De Rainer Maria Rilke
Tradução: Paulo Plínio Abreu


Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.


Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

quarta-feira, 20 de abril de 2011




UM DESPERTAR
De Octavio Paz
Trad. Antônio Moura


Estava emparedado dentro de um sonho,
Seus muros não tinham consistência
Nem peso: seu vazio era seu peso.
Os muros eram horas e as horas
Fixo e acumulado pesar.
O tempo dessas horas não era tempo.

Saltei por uma fenda: às quatro
Deste mundo. O quarto era meu quarto
E em cada coisa estava meu fantasma.
Eu não estava. Olhei pela janela:
Sob a luz elétrica nem uma viva alma.
Reflexos na vela, neve suja,
Casas e carros adormecidos, a insônia
De uma lâmpada, o carvalho que fala solitário,
O vento e suas navalhas, a escritura
Das constelações, ilegíveis.

Em si mesmas as coisas se abismavam
E meus olhos de carne as viam
Oprimidas de estar, realidades
Despojadas de seus nomes. Meus dois olhos
Eram almas penadas pelo mundo.
Na rua vazia a presença
Passava sem passar, desvanecida
Em suas formas, fixa em suas mudanças,
E em volta casas, carvalhos, neve, tempo.
Vida e morte fluíam confundidas.

Olhar desabitado, a presença
Com os olhos de nada me fitava:
Véu de reflexos sobre precipícios.
Olhei para dentro: o quarto era meu quarto
E eu não estava. A ele nada falta
- sempre fiel a si, jamais o mesmo -
ainda que nós já não estejamos... Fora
contudo indecisas, claridades:
a Alba entre confusos telhados.
E as constelações que se apagavam.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Arsenio homenageia Bandeira com....Drummond!!!




Ode no cinquentenário do poeta brasileiro
(Gentilmente enviado por Arsenio)



Esse incessante morrer
que nos teus versos encontro
é tua vida, poeta,
e por ele te comunicas
com o mundo em que te esvais.

Debruço-me em teus poemas
e neles percebo as ilhas
em que nem tu nem nós habitamos
(ou jamais habitaremos!)
e nessas ilhas me banho
num sol que não é dos trópicos,
numa água que não é das fontes
mas que ambos refletem a imagem
de um mundo amoroso e patético.

Tua violenta ternura,
tua infinita polícia,
tua trágica existência
no entanto sem nenhum sulco
exterior - salvo tuas rugas,
tua gravidade simples,
a acidez e o carinho simples
que desbordam em teus retratos,
que capturo em teus poemas,
são razões por que te amamos
e por que nos fazes sofrer...

Certamente não sabia
que nos fazes sofrer

É difícil de explicar
esse sofrimento seco,
sem qualquer lágrima de amor,
sentimento de homens juntos,
que se comunicam sem gesto
e sem palavras se invadem
se aproximam, se compreendem
e se calam sem orgulho.

Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa,
anunciando que tua vida passou à toa, à toa.
Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino,
diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito
[infiltrado.
Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarapitados
[nos burros velhos.
Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite.
Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra
[do Paraguai,
a de Bentinho Jararaca
ou a de Christina Georgina Rossetti:
és tu mesmo, é tua poesia,
tua pungente, inefável poesia,
ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,
queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las;
é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador
e que vem trazer-nos na aurora o sopro quente dos mundos,
das amadas exuberantes e das situações exemplares
que não suspeitávamos.

Por isto sofremos: pela mensagem que nos confias
entre ônibus, abafada pelo pregão dos jornais e mil
queixas operárias;
essa insistente mas discreta mensagem
que, aos cinqüenta anos, poeta, nos trazes;
e essa fidelidade a ti mesmo com que nos apareces
sem uma queixa, no rosto entretanto experiente,
mão firme estendida para o aperto fraterno
- o poeta acima da guerra e do ódio entre os homens -,
o poeta ainda capaz de amar Esmeralda embora a alma anoiteça,
o poeta melhor que nós todos, o poeta mais forte
- mas haverá lugar para a poesia?

Efetivamente o poeta Rimbaud fartou-se de escrever,
o poeta Maiakovski suicidou-se,
o poeta Schmidt abastece de água o Distrito Federal...
Em meio a palavras melancólicas,
ouve-se o surdo rumor de combates longínquos
(cada vez mais perto, mais, daqui a pouco dentro de nós).
E enquanto homens suspiram, combatem ou simplesmente
ganham dinheiro,
ninguém percebe que o poeta faz cinqüenta anos,
que o poeta permaneceu o mesmo, embora alguma coisa de
extraordinário se houvesse passado,
alguma coisa encoberta de nós, que nem os olhos traíram nem
as mãos apalparam,
susto, emoção, enternecimento,
e uma confiança maior no poeta e um pedido lancinante para que
não nos deixe sozinhos nesta cidade
em que nos sentimos pequenos à espera dos maiores acontecimentos.

Que o poeta nos encaminhe e nos proteja
e que o seu canto confidencial ressoe para consolo de muitos
e esperança de todos,
os delicados e os oprimidos, acima das profissões e dos vãos
disfarces do homem.
Que o poeta Manuel Bandeira escute esse apelo de um homem humilde.

Carlos Drummond de Andrade




Tadeu Rocha

segunda-feira, 18 de abril de 2011



Prólogo, na verdade um PS necessário: O conto abaixo foi escrito logo após o lançamento do filme Amadeus, de 1984. Tal filme foi baseado na peça de teatro de Peter Shaffer. A imagem de Antonio Salieri retratada no filme é de uma pessoa invejosa e de um músico medíocre. O conto baseia-se no Salieri da ficção, que difere do Salieri como figura histórica.



A DESVENTURA DE UM AVENTUREIRO


Dias se passaram, desde sua entrevista com o padre. Pobre homem! Ficara boquiaberto com suas confissões.
Naquele momento encontrava-se sentado sobre a cama – seus pensamentos contaminados pela loucura. Maquinar a morte de Mozart não só teve um sabor de vingança, mas também de aventura. A música daquele homenzinho era a própria voz de Deus, levando os homens ao arrependimento e exalando a fragrância do perdão. Silenciar Mozart era desafiar o divino. Sentia-se como um anjo decaído. A tristeza cobria sua alma como um manto, pois a voz do seu rival continuava viva através de outras tantas bocas. E a música perfeita de Amadeus era íntima dos grandes músicos da região. Não tardaria a ser reverenciada pelo mundo.
Conseguira destruir o homem, mas não sua arte que permanecia como um carrasco ceifando sua vida – negando-lhes o privilégio de desfrutar de sua vitória. Que vitória?
Seu corpo parecia reagir a esses pensamentos. Teve convulsões. A dor parecia visitar todos os recantos do seu interior. Blasfemou contra tudo e contra todos. Foi exatamente naquele instante que eu, a morte, aproveitando a porta entreaberta, atravessei o quarto e cerrei os olhos de Salieri.

Tadeu Rocha

Epílogo, na verdade um PS desnecessário: O texto foi escrito em 1984 ou em 1985. Tinha portanto entre 16 e 17 anos. Faz portanto 25 ou 26 anos. Tô ficando velho...rssss.


UMA CRIATURA
De Machado de Assis
(Gentilmente enviado por Arsenio)



Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

domingo, 17 de abril de 2011



Os Dois Horizontes
De Machado de Assis



Dois horizontes fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro, —
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais.
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? — Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? — Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dois horizontes fecham nossa vida.

sexta-feira, 15 de abril de 2011



Nesta Esquina do Tempo
De José Saramago


Nesta esquina do tempo é que te encontro,
Ó nocturna ribeira de águas vivas
Onde os lírios abertos adormecem
A mordência das horas corrosivas.

Entre as margens dos braços navegando,
Os olhos nas estrelas do eu peito,
Dobro a esquina do tempo que ressurge
Da corrente do corpo em que me deito

Na secreta matriz que te modela,
Um peixe de cristal solta delírios
E como um outro sol paira, brilhando
Sobre as águas, as margens e os lírios.


No Silêncio dos Olhos
De José Saramago


Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

quarta-feira, 13 de abril de 2011





A FLAUTA VÉRTEBRA
De Vladimir Maiakóvski
tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman


A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.



DE "V INTERNACIONAL"
Vladimir Maiakóvski
tradução: Augusto de Campos



Eu
à poesia
só permito uma forma:
concisão,
precisão das fórmulas
matemáticas.
Às parlengas poéticas estou acostumado,
eu ainda falo versos e não fatos.
Porém
se eu falo
"A"
este "a"
é uma trombeta-alarma para a Humanidade.
Se eu falo
"B"
é uma nova bomba na batalha do homem.

terça-feira, 12 de abril de 2011




BALADA DO ESPLANADA
De Oswald de Andrade



Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes de ir
Pro meu hotel.

É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada.

Eu qu'ria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel

No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel

Pra m'inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel

Mas não há poesia
Num hotel
Mesmo sendo
'Splanada
Ou Grand-Hotel

Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador


Quarenta Anos
De Mário de Andrade



A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.

Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar… Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado… Horrendo

Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.

Vou fazer do meu fim minha esperança,
Ôh sono, vem!… Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.



A Um Ausente
De Carlos Drummond de Andrade



Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enloqueceu, enloquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

domingo, 10 de abril de 2011




TORMENTO
Aos aflitos da alma, minha poesia e minha voz.


Nada de novo no front
Nem mesmo minhas tormentas
As mesmas vozes me afligem
As mesmas alucinações me perseguem
Companheiros de loucura se misturam na multidão
Eu não
Nem mesmo isso me consola
Não passo despercebido
Meus olhos caçam os comprimidos no quarto escuro
É hora de enfrentar meus moinhos de vento.

Tadeu Rocha

sábado, 9 de abril de 2011




PS: Cliquem na imagem para ampliá-la e o resultado será positivo. O poema de Gullar é de 1954, embora só tenha lido em 2010. O poema protesto é de 1989.