quarta-feira, 30 de março de 2011




CONTRA TEMPO I


Eu achava que o tempo
Era apenas uma pista de mão única
Onde só regressavam os pensamentos
Nas asas da memória
Mas o tempo é bem mais do que isso
O tempo é um assassino corrosivo
O serial killer mais dissimulado

Tadeu Rocha



CONTRA TEMPO II


Eu não conheço a morte
Nunca vi a morte
Mas conheço a foice da morte
Eu já vi a foice da morte
A foice da morte é o tempo


Tadeu Rocha

terça-feira, 29 de março de 2011




NA BOCA DO TEMPO


Há tempo que não escrevo um poema
Não pela ausência da inspiração
Mas pela ausência de mim mesmo
Sai de mim
Como quem abandona o automóvel
No meio do engarrafamento
E o que deixei
Foi uma mera sombra
Em meio ao turbilhão de buzinas
- Sinfonia do caos

Há tempo que não transbordo um poema
Ainda que esteja inundado de poesia
O tempo me consome
Como quem traga um cigarro
Eu sou o cigarro na boca do tempo
E a fumaça de minha existência
Abre as asas sobre a cidade
Do meu voo efêmero e solitário
Observo em algum lugar
Minha sombra deixar o carro

Tadeu Rocha

sábado, 26 de março de 2011





O Sol em Pernanbuco
De João Cabral de Melo Neto



(O sol em pernambuco leva dois sóis,
sol de dois canos, de tiro repetido;
o primeiro dos dois. o fuzil de fogo.
incendeia a terra: tiro de inimigo).
O sol ao aterissar em Pernambuco,
acaba de voar dormindo o mar deserto; mas ao dormir
se refaz, e pode decolar mais aceso;
assim, mais do que acender incendeia,
para rasar mais desertos no caminho;
ou rasá-los mais, até um vazio de mar
por onde ele continue a voar dormindo.