terça-feira, 12 de abril de 2011




BALADA DO ESPLANADA
De Oswald de Andrade



Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes de ir
Pro meu hotel.

É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada.

Eu qu'ria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel

No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel

Pra m'inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel

Mas não há poesia
Num hotel
Mesmo sendo
'Splanada
Ou Grand-Hotel

Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador

5 comentários:

  1. Grande Tadeu. Só Pirâmide. Três Ícones, cada qual à sua maneira. E os poemas: a conhecida Balada de Oswald, o soneto - clássico e preminotório - de Mário, e claro, o Poeta maior Carlos Drummnod de Andrade, em A um Ausente.

    Sobre Oswald, algumas palavras.
    Foi, na minha opinião, o ânimo mais agitador do modernismo.

    Sua estreia se deu com "Pau- brasil", em 1925, livro que reconstroi, em poemas quase telegráficos, a nossa história, com o humor corrosivo que sempre o distinguiu dos seus pares.

    Se um dos objetivos era despir a poesia da época de toda pompa, que ainda a cercava (os beletristas resistiam...), não poderia ter feito coisa melhor pelo movimento iconoclasta, ainda embrionário, pois os modernos mesmo cuidaram logo em afirmar que não sabiam bem o que pretendiam, mas tinham certeza do que não queriam.

    Há na obra de Oswald, especialmente nos poemas curtos e descritivos, forte influência do poeta francês Blaise Cendrars, que esteve por aqui na época e de quem Oswald fez-se amigo.

    O poema postado, por exemplo, pertence à sua última fase, representada pelo livro "Cântico dos cânticos para flauta e violão, escrito durante a guerra, com o modernismo já consolidado e em fase de canône. A última estrofe pode ser lida como um sumário da sua poética. É uma das verdades em arremate de poesia.

    O livro foi dedicado a um personagem especial. A sua última esposa Maria Antonieta D'Alkmin (Oswald, em matéria de conquistas, foi uma espécie de Vinicius de Moraes paulista...)

    Essa última fase é totalmente diversa, uma poesia amorosa de grande lirismo, das mais belas escritas no gênero.

    Graças à releitura que me propus a fazer da Poesia Oswaldiana pude rever alguns equívocos meus. Achava Oswald um poeta secundário, mais líder e agitador do que propriamente poeta.

    Faço a mea-culpa. Ele conseguiu aliar esses dois atributos. Foi um dos maiores cartazes de um movimento que viria mudar para sempre a história literária brasileira, e foi um poeta digno, que se propôs a ser corrosivo, irônico e lírico. E corrosivo, irônico e lírico, ele terminou por assegurar o seu posto definitivo em nosso painel literário.

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  2. Arsenio, sempre gostei dos Andrades. Sempre gostei de Oswald pelos versos telegramas e pelo seu espírito "revolucionário". Drummond, dispensa comentários. Poeta completo. Quanto a Mário, gosto de suas poesias e também de seus contos. E aqui aproveito para dizer que vale a pena ler Paranóia de Roberto Piva, que faz uma releitura de Paulicéia Desvairada, citando várias vezes Mario. Com versos longos, surrealismo, várias metáforas e imágens.Um forte abraço e viva a poesia!

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  3. É isso aí Tadeu.

    Realmente, eu tinha um certo ranço para com Oswald. Tinha... Hoje, concordo contigo. E Mário foi um verdadeiro Apóstolo da literatura. Um missionário. Escreveu mais de mil cartas... além de uma obra que não se restringiu apenas à literatura, mas também à música (era expert no assunto e museólogo), além de ter praticado a crítica literária com vigor.

    Da sua casa, situada na famosa Rua Lopes Chaves, 546, costuma-se dizer que Mário regeu uma orquestra com sua genrosidade e cultura inenarráveis. De Drummond ao mais obscuro dos poetas, enfim, todos receberam o seu conselho, a sua lição. o Quinhão de sua vasta humanidade.

    Tinha o espírito congregador, escreveu até morrer, e como Poeta e Contista deixou obras um pouco prejudicadas pelas inúmeras atividade que exerceu como missionário do movimento modernista, mas que, nem por isso, deixemos de entrever algumas obras - primas , como o seu testamento poético, o famosos poema "Meditação sobre o Rio Tietê".

    Não bastassem todos esses atributos, Mário, ao escrever "Macunaíma", prenunciou o gênesis cultural-comportamental do homem brasileiro... Quer dizer: cinqunta anos antes, Mário já sabia da existência do famoso jeitinho brasileiro.

    Sobre Piva, é um poeta que também admiro.
    Ele e Claudio Willer são dois dos nomes mais representativas da chamada geração 60, publicada por Massao Ohno, em famosa antologia.

    "Paranoia", seu livro de estreia, é um livro onde os neons do concreto urbano se misturam com os anjos e com iconoclastia desse poeta, recentemente desaparecido, que realmente cultivou as tintas do surrealismo com seu ritmo acachapante.

    São versos elípticos e furiosos, que revelam o profeta do sonho urbano, capturando o tentáculo e a demência da metrópole.

    Piva manteve-se autêntico até o fim. Um Poeta com uma Postura incendiária.

    Como exemplo, transcrevo o poema A Piedade:

    "A PIEDADE

    Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
    abatido na extrema paliçada
    os professores falavam da vontade de dominar e da
    luta pela vida
    as senhoras católicas são piedosas
    os comunistas são piedosos
    os comerciantes são piedosos
    só eu não sou piedoso
    se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
    aos sábados à noite
    eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
    cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
    bóia? por que prego afunda?
    eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
    estátuas de fortes dentaduras
    iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
    pederastas ou barbudos
    eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
    que tenho todas as virtudes
    eu não sou piedoso
    eu nunca poderei ser piedoso
    meus olhos retinem e tingem-se de verde
    Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
    pavimentos
    os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
    asfixiadas
    arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
    dos meus sonhos"

    ROBERTO PIVA

    Abraço e dois vivas para a Poesia.

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  4. eu preciso da analise deste poema mas nao consegue

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