sexta-feira, 22 de abril de 2011



CARTAS A UM JOVEM POETA

"PRIMEIRA CARTA"



" Paris, 17 de Fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizíveis quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, - seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, "Minha Alma". Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema "A Leopardi" talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos, sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem - usando da licença que me deu de aconselhá-lo - peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, - ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite:"Sou mesmo forçado a escrever?" Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples "sou", então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate tudo isso com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas desse longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre lusco e fusco diante da qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, - o único existente. Também, meu prezado senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra a sua vida; na fonte desta é que encontrará a resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta.

(Basta, como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Hoaracek; guardo por esse amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke"

Esta Primeira Carta do livro "Cartas a um jovem poeta",
foi traduzida por Cecília Meireles, retirados da edição :
"Cartas a um jovem poeta e Canção de Amor e morte
do porta-estandarte Cristovão Rilke", Editora Globo, 1983.
O jovem poeta em questão chama-se Frans Xaver Kappus.

6 comentários:

  1. Caro amigo Tadeu:

    Que prazer imenso reler "Cartas a um jovem poeta" de Rilke!!! É quando a gente se depara com a verdade de frente: "...morreria se lhe fosse vedado escrever???" Eu creio que sim. Acho que sua resposta também é afirmativa, assim como a de Arsênio, Domingos Sávio, Aldo Lins, Sérgio Leandro...e tantos outros. Estamos juntos nessa luta, amigo!

    Grande Abraço!

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  2. Carlos Maia, sempre bom trocar idéias contigo. Desde o inicio da semana estava com vontade de publicar essa carta. Carta que deve ser lida por todos que gostam de escrever e amam a poesia. Podemos ver através desta carta a grandeza de Rilke. Que bom poder estar ao seu lado na tarefa prazeirosa de divulgar a poesia. Viva a poesia! Viva os poetas! Viva carlos Maia! Viva Domingos! Viva Magna Santos! Viva Luciana Cavalcanti! Viva os leitores! Amém!

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  3. Obrigada, meu amigo. E viva Tadeu Rocha! Viva Rilke!
    Tentei sublinhar na mente as melhores palavras, mas...impossível. Toda a carta é essencial e diz tanto de nós...dessa intranquilidade, expectativa, vazio, quando a palavra se demora no caminho entre o coração e os dedos. Parece ter vontade própria até que vem um amigo e nos dá a deixa, o mote, a razão, como foi na última publicação de Sementeiras sobre Bandeira.
    Quem seríamos nós sem a palavra, a poesia? Zumbis sem vodu, múmias sem morte, caminho sem peregrino?
    Não sei, graças a Deus, não sei. Só sei que O Grande Poeta, mais que ninguém, entende do que se fala,porque Ele próprio é a palavra: "No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (acho lindo isto).
    E ainda lembrando do poeta Gibran: "as palavras são eternas; deveis pronunciá-las ou escrevê-las, lembrando-vos da sua eternidade".
    Enfim, sigamos semeando um tanto de letras pelo mundo adiante.
    Abração, meu amigo.
    Fique com Deus!
    Magna
    Obs.:como curiosidade, tentei saber um pouco mais sobre o destinatário da carta. O jovem Kappus, pelo pouco que vi, parece ter virado romancista, depois de jornalista, além de novelista. Ao que tudo indica, desistiu da poesia ou de ser poeta. Se há alternativa, é porque não se é, não é verdade?

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  4. Magna, Kappus "deixou" a poesia, mas não conseguiu parar de escrever, como vc bem revelou. Sobre Rilke, as cartas revelam muito da sua personalidade, humildade, humanidade e sabedoria. Um dos poetas mais badalados de sua época, recebe uma carta de um desconhecido, ainda que esse desconhecido tenha sido recomendado por um antigo amigo professor e capelão Hoaracek. E ele dedica seu tempo e atenção para responde-lo. Sem midia, sem a tv cobrindo seu gesto. Sem esperar nada em troca. Grandioso Rilke. Sua curiosidade Magna foi contagiante e também me levou a procurar saber mais sobre o destino de Kappus. Um abraço.

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  5. Eu estou por aqui.Respondendo a chamada e aprendendo.O melhor é que tem o post (poesia,cartas...) e os comentários=aulas da turma. E é "de grátis" afinal,sou negro,feio,pobre e moro longe.

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  6. Grande João! Trocar idéias com amigos é bom demais. Felicidades mil pra vc!!! Sua coluna, como disse, é imperdível. Um forte abraço.

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