quarta-feira, 13 de abril de 2011





A FLAUTA VÉRTEBRA
De Vladimir Maiakóvski
tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman


A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

8 comentários:

  1. Tadeu, depois de um dia cansativo, na verdade, um dia dorido por questões alheias, sendo capaz de assimilar algumas, este espaço me trouxe um alento e uma saudade.
    É bom poder chegar a um "porto seguro" com tantas embarcações, tantos poetas a nos falar de tanto...
    Esqueci o silêncio, Maiakóvsk me fez esquecer e quase escrevia tudo aqui. Sobrou bem pouco para Sementeiras, mas ainda sobrou.
    Fui contagiada pelo brinde de Maiakóvsk. Certamente, minha taça não é tão brilhante, nem meu crânio, tão cativante e, deveras, sofre pelo cansaço. Mas também exulta de uma esperança e uma alegria que nunca o deixaram. Por isto estou aqui.
    Obrigada.
    Abração.
    Magna

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  2. Magna, espero que vc desfrute da bonança após a tempestade. Há uma canção/oração que me veio a mente e que diz: "Que tua vida amigo(a) seja sempre para o melhor. Que o sol aqueça o teu viver. Que a chuva caia suave no teu lar. Até nos encontrarmos outra vez...Que Deus te segure em tuas mãos....Que o Senhor sobre ti levante o rosto e te dê paz".

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  3. Tadeu, muitíssimo obrigada. Apressei-me em te responder: já estou desfrutando. As dores não duram muito comigo não, nem as minhas nem as alheias. As encaro sempre(filosofia de vida) como oportunidades. Falar, ocasionalmente, sobre elas me ajuda a aprender a lição necessária, aliás, as palavras sempre são instrumentos.
    Obrigada, mais uma vez, meu amigo.
    Abração.
    Magna
    Obs.:teu blog está uma delícia, Tadeu. Nos sentimos num sarau repleto de bem-te-vis.

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  4. Tadeu e Magna, MAIAKÓVSK, MÍTICO E GENIAL.
    Abraços para os amigos.

    A PLENO PULMÕES
    (Trecho final)
    "(...)

    Os versos
    para mim
    não deram rublos,
    nem mobílias
    de madeiras caras.

    Uma camisa
    Lavada e clara,
    e basta, —
    para mim é tudo.
    Ao
    Comitê Central
    do futuro
    ofuscante,
    sobre a malta
    dos vates
    velhacos e falsários,
    apresento
    em lugar
    do registro partidário

    todos
    os cem tomos
    dos meus livros militantes."

    (Tradução de HAROLDO DE CAMPOS)

    *Como todos sabem, Mai­akóvski ma­tou-se, aos 36 anos, em 1930, quan­do Stá­lin (o Hitler Russo), se­nhor do po­der, ha­via ex­pur­ga­do ad­ver­sá­rios de pe­so co­mo Li­ev Trotski e en­qua­dra­va (leia-se torturava e matava) aque­les que pen­sa­vam di­fe­ren­te­men­te da or­to­do­xia do par­ti­do.

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  5. Uma curiosidade deste poema citado por vc Arsênio, que consta na integra aqui no blog, é que foi escrito entre dez/1929 e jan/1930, portanto um de seus últimos poemas. O poeta russo faleceu em abril de 1930. Abraço.

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  6. E nesse diálogo eu me enriqueço, qual bandeira em noite estrelada. Sempre cintila diferentemente uma cor antes não vista, não apreciada.
    Obrigada, poetas Arsênio e Tadeu!
    O poema em questão diz o que pretendia(creio). Nele há indignação, resistência, vigor. Pena o poeta não ter prosseguido na luta ativa, talvez "pensasse" ser aquela uma forma de lutar naqueles tempos de tantas atrocidades. Pena. É isto.
    Bom final de semana para vocês.
    Beijão.
    Magna

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  7. Magna, que bom contar com sua presença. Concordo contigo. Ele morreu muito jovem. Bom final de semana pra ti tb.

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  8. É verdade, Tadeu. Nessa época, o fim estava próximo...

    E Magna e Tadeu, outro trecho genial de Maiakovsk, dá bem a medida do poeta que ele é; seja indignado, jiperbólico, tornitruante ou declamatório.

    Nesse exemplar, um dos mais belos momentos do lirismo mundial:

    " Não acabarão com o amor,
    nem as rusgas,
    nem a distância.
    Está provado,
    pensado
    verificado.
    Aqui levanto solene
    minha estrofe de mil dedos
    e faço o juramento:
    Amo
    firme
    fiel
    e verdadeiramente. "

    Maiakovski (1893-1930)

    Tradução de E. Carrera Guerra.

    Abraços para os amigos e bom final de semana.

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