domingo, 17 de abril de 2011



Os Dois Horizontes
De Machado de Assis



Dois horizontes fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro, —
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais.
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? — Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? — Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.

Dois horizontes fecham nossa vida.

2 comentários:

  1. Grande Tadeu,

    Bom lembrar do Machado Poeta. Embora - obviamente - muito aquém do Machado Ficcionista.

    Geralmente - e com justa razão - quando se fala na poesia de Machado de Assis, a primeira lembrança que vem à mente é o antológico soneto que ele escreveu para a companheira que o deixou: CAROLINA.

    Ou então, os dois sonetos: "Círculo Vicioso" (interessante metáfora sobre a inveja ou ambição desmedida) e o clássico Soneto de Natal, que aborda, sobretudo a passagem do tempo e suas conseuqências.)

    Todavia, trago ao blog O poema abaixo, grande e imenso. Nele, percebemos o Machado cético; o romancista que escreveu que jamais deixaria o legado da miséria humana para o filho que não teve.

    Neste sentido, o poema é a tradução sintetizada do romancista ou do sentimento que guiou este filho de uma gente pobre e humilde, criado sem pai, que foi guindado ao trono graças ao próprio gênio. Poucos souberam manejar a língua portuguesa como ele. Sua percepção sem igual da natureza humana também contribuiu para alça-lo à condição do maior escritor brasileiro de todoas as épocas.

    Abraços
    Arsenio

    UMA CRIATURA


    Sei de uma criatura antiga e formidável,
    Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
    Com a sofreguidão da fome insaciável.

    Habita juntamente os vales e as montanhas;
    E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
    Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

    Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
    Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
    Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

    Friamente contempla o desespero e o gozo,
    Gosta do colibri, como gosta do verme,
    E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

    Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
    E caminha na terra imperturbável, como
    Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

    Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
    Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
    Depois a flor, depois o suspirado pomo.

    Pois esta criatura está em toda a obra;
    Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
    E é nesse destruir que as forças dobra.

    Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
    Começa e recomeça uma perpétua lida,
    E sorrindo obedece ao divino estatuto.
    Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

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  2. Agradeço pelo poema Arsenio. Vai virar um post. Valeu!

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