quarta-feira, 20 de abril de 2011




UM DESPERTAR
De Octavio Paz
Trad. Antônio Moura


Estava emparedado dentro de um sonho,
Seus muros não tinham consistência
Nem peso: seu vazio era seu peso.
Os muros eram horas e as horas
Fixo e acumulado pesar.
O tempo dessas horas não era tempo.

Saltei por uma fenda: às quatro
Deste mundo. O quarto era meu quarto
E em cada coisa estava meu fantasma.
Eu não estava. Olhei pela janela:
Sob a luz elétrica nem uma viva alma.
Reflexos na vela, neve suja,
Casas e carros adormecidos, a insônia
De uma lâmpada, o carvalho que fala solitário,
O vento e suas navalhas, a escritura
Das constelações, ilegíveis.

Em si mesmas as coisas se abismavam
E meus olhos de carne as viam
Oprimidas de estar, realidades
Despojadas de seus nomes. Meus dois olhos
Eram almas penadas pelo mundo.
Na rua vazia a presença
Passava sem passar, desvanecida
Em suas formas, fixa em suas mudanças,
E em volta casas, carvalhos, neve, tempo.
Vida e morte fluíam confundidas.

Olhar desabitado, a presença
Com os olhos de nada me fitava:
Véu de reflexos sobre precipícios.
Olhei para dentro: o quarto era meu quarto
E eu não estava. A ele nada falta
- sempre fiel a si, jamais o mesmo -
ainda que nós já não estejamos... Fora
contudo indecisas, claridades:
a Alba entre confusos telhados.
E as constelações que se apagavam.

5 comentários:

  1. Belo exemplar de Octavio Paz, meu amigo.
    Gosto demais desse poeta.

    Quando chego aqui, nestas belas paragens, o tempo tece seu liame de poesia, fraternidade, e alumbramento.

    De Octavio Paz, trago para o blog esse poema. Que me põe pensativo por demais.

    "IRMANDADE

    Sou homem: duro pouco
    e é enorme a noite.
    Mas olho para cima:
    as estrelas escrevem.
    Sem entender compreendo:
    Também sou escritura
    e neste mesmo instante
    alguém me soletra."

    Abraços do amigo Arsenio

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  2. Eternamente grato meu amigo. Irmandade também é um poema maravilhoso. Feliz páscoa para você e todos os seus familiares.

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  3. Feliz Páscoa, Tadeu.
    Como você diz, feliz tudo!
    Para você e toda a família.
    Abraços do amigo Arsenio

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  4. Belíssimo poema, Tadeu!
    Excelente escolha!
    Octavio Paz é muito bom!

    Feliz Páscoa pra você, amigo!

    E VIVA A POESIA!!!

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