segunda-feira, 18 de abril de 2011



UMA CRIATURA
De Machado de Assis
(Gentilmente enviado por Arsenio)



Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

2 comentários:

  1. Tadeu e meu irmãozinho Arsênio, é com emoção que agradeço por tão forte poema. Sim, vida e morte. Lados da mesma face para quem olha no espelho diário do tempo.
    Maravilhoso.
    Vou agorinha distribuí-lo com os amigos. Por certo, se identificarão, como eu, nestas palavras do Machado. Não era à toa que tinha este nome: 'Machado'.
    Beijos fraternos!
    Fiquem com Deus!
    Magna

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  2. Feliz que tenha gostado Magna. Resolvi publicar um poema de Machado e Arsenio veio com esse belo poema.

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