quinta-feira, 26 de maio de 2011




De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda adeitada,
na praia, te parecias

Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parava
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na praia cama, finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,

e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

João Cabral de Melo Neto

domingo, 22 de maio de 2011



O céu parece revestido
de uma camada de cimento:
deixo as marquises porque sei
que esta chuva não passará.
Se esperasse um tempo de paz,
nem meu túmulo construiria.
Começo e recomeço a casa
de papelão em pleno inverno.
Um plano, um programa de ação
debaixo de uma árvore em prantos,
e voltar à primeira página
branca e ferida pela pressa.
A poesia já não seduz
a quem mais forte ultrapassou-a,
libertando um pouco de vida
e luz, da corrente de estrelas.
Toda renúncia nos convida
a recomeçar outra busca,
porque algo a inocência perdeu
no chão, para arrastar-se assim.


ALBERTO DA CUNHA MELO

terça-feira, 17 de maio de 2011



Moro tão longe, que as serpentes
morrem no meio do caminho.
Moro bem longe: quem me alcança
para sempre me alcançará.
Não há estradas coletivas
com seus vetores, suas setas
indicando o lugar perdido
onde meu sonho se instalou.
Há tão somente o mesmo túnel
de brasas que antes percorri,
e que à medida que avançava
foi-se fechando atrás de mim.
É preciso ser companheiro
do Tempo e mergulhar na Terra,
e segurar a minha mão
e não ter medo de perder.
Nada será fácil: as escadas
não serão o fim da viagem:
mas darão o duro direito
de, subindo-as, permanecermos.


ALBERTO DA CUNHA MELO

sexta-feira, 13 de maio de 2011




moinho de versos
movido a vento
em noites de boemia
vai vir o dia
quando tudo que eu diga
seja poesia


Paulo Leminski

segunda-feira, 9 de maio de 2011



SONATA PATÉTICA
De Cassiano Ricardo

I

O meu rosto do retrat,
jovem, e por minha mãe
colocado na parede
deste quarto, onde hoje moro,
fica defronte ao do espelho.

O do espelho nem parece
ser o eu mesmo do retrato.
De tão triste: Diferente.
Parece mais um parente
corroído por muitos danos
mas ainda vivo, chegado
de uma viagem de trinta anos.

Como pude morrer tanto,
mudar de cor, e de fato,
sem um grito, sem um ai
entre um espelho e um retrato?
Só perguntando a meu pai.

Na hora, não senti nada...
Agora não me conformo
com a rude metamorfose
que me deixou sua marca.
Que me saqueou de mansinho,
me pôs nu diante do espelho
piando como um passarinho.
Como se a vida não fosse
Já tão magra, já tão parca.
Que fada exigente, má,
pediu meu rosto ao tetrarca?

Só mesmo a gente se rindo.

Rio-me desapontado,
por ver que já não adianta
chorar, se tudo está findo.

E vou do espelho ao retrato
(de cabelo repartido)
e do retrato ao espelho
(caco de espelho partido)
com qual dos dois me assemelho?
Lá fora dançam as árvores
no crepúsculo vermelho...


II

Tempo abutre pernilongo
ficou tocando violino
enquanto chupa meu sangue
em noite de serenata.

Bebeu água nos meus olhos .
Me depenou. Arrancou-me
penas do corpo e das asas.
E voa com minhas penas.
E leva, agora, o meu rosto
Para o lado do sol-posto.

Em cada passo que dou,
hoje, entre o espelho e o retrato,
já eu próprio me divido.
enquanto um pé é futuro
o outro já foi pro olvido.
E, sem sentir coisa alguma
(pois raramente me ajoelho)
vou andando, dividido,
meio anjo, meio bicho,
entre os dois: retrato e espelho.

Vou andando, repartido
entre o poeta do retrato
e o filósofo do espelho.
Entre o meu rosto, já ausente,
e o eu, de corpo presente.

Na hora não senti nada.
Não é nada... não é nada...
Depois é que sinto o estrago.
O tempo passou, num trago,
me depenou e, com as minhas
penas fez as suas asas.
Quando ouvi seu passo duro
_ pois caminho pro futuro
com o calcanhar para o oeste_
já ele ia pro sol-posto
onde enterrará o meu rosto.
Eu vejo tudo no espelho.
Chovem brasas! chovem brasas!

Só mesmo a gente se rindo
Sobre o espetáculo findo.
Lá fora as árvores dançam
no crepúsculo vermelho...


III

“O que me abisma, entretanto,
nesta grande tarde rubra,
já não é o eu haver sido
apedrejado em silêncio
por um secreto inimigo
que deve morar comigo
sem que eu, jamais, o descubra.
Já não é a bofetada
que o tempo, em câmara lenta,
me aplicou, não senti nada.
Já não é o terremoto
em meu chão de carne e osso,
sem registro no sismógrafo,
que passou, não senti nada.
O que me abisma, inda agora,
não é a distância que vai
entre o meu rosto do espelho
e o meu rosto do retrato.
É o tempo, o tempo que mói,
no céu, as próprias estrelas,
como uma farinha de ouro;
é o tempo, o tempo que rói
até o rosto dos retratos;
é o tempo que nos destrói
tudo, tudo-tudo-tudo,
nem de leve me haver doído.
Isto agora é que me dói.
Este, o insulto que revido.
Como pude morrer tanto,
e tanto, sem me haver doído?”

(Só mesmo achando engraçado
o que já triste, bem triste.)
E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho:
“Como é que uma bofetada
não me doeu, cruel, imensa,
no momento de ter doído?
Pra que eu tivesse reagido
na hora, à altura da ofensa?
Pois não senti a bofetada...
Isto agora é que me dói.”

“Que anestésico celeste
terá usado o vil abutre
que subverteu, em trinta anos,
toda minha geografia?
Comeu rosas, deixou cravos
no chão de tanto desgosto
que hoje é o mapa do meu rosto?
E tudo tão sem rumor,
Tudo tão sem me haver doído
que não lhe senti a bicada?
Este, o ponto que revido.
Isto agora é que me dói”

“Como hoje curar feridas
assim, retroativamente,
na máquina de costura
se as pedras, que a mão oculta
me arremessou, foram mudas?
Se não lhe senti a pedrada?
Isto agora é que me dói.”
E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho:
“Quero encontrar o agressor,
mas como? Ele está escondido
no curto espaço que vai
entre um espelho e um retrato.
A quem, pois, pedir conselho?
Ele ficou dividido
Entre os dois: retrato e espelho.
Quero caça-lo, não posso.
Sua boca é de um minuto
escondido sob as asas
mas ele tem cara grande
não cabe em fotografia.
Tem dois rostos, do tamanho,
Um, da noite, outro do dia.”
(E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho.)

“Uma coisinha de nada
dos solavancos em meio
arranhadura no dedo
picada de azul piranha
mordida de pernilongo
queda durante o passeio
feridazinha singela
no ato de abrir a janela,
já me obriga a fazer feio.
Como, pois, poderei eu
aceitar (eu, o agredido)
uma dor que não me doeu
no momento de ter doído?
Não é justo, não é honesto.
Contra isto é que protesto.
Tudo perdido, inclusive
Minha vocação para herói:
Isto agora é que mais dói!”
E rio-me sem querer.

Pois não me resta outra coisa
(por não ter sentido nada)
À hora do necrológio
senão me rir do que é triste
e... consultar o relógio.

sábado, 7 de maio de 2011



NÃO SOU O HERÓI DO DIA
De Cassiano Ricardo
Petardo gentilmente enviado por Arsenio


Não sou o herói do dia.
A vida me obrigou
a comparecer, sem convite, ao banquete,
em que me vejo, agora, erguendo a taça,
não sei a quem.
Soldado que lutou sem querer, por força
do original pecado, e em cujo peito não fulgura,
até hoje, nenhuma
condecoração.

Não sou o herói do dia. Passei pela vida
como quem passa
por um jardim público, onde há uma rosa proibida
por edital.
A rosa de ninguém, a rosa anónima
que aparece jogada sobre o túmulo
do desconhecido, todas as manhãs.

É bem verdade que, em menino, eu possuía uma banda de música
que tocava no circo, acompanhava enterro,
que tomava parte em procissão de encontro
e nos triunfos da legalidade.
Hoje, porém, - pergunto -, onde o pitão, o bombardino, o saxofone, a flauta, a clarineta,
os instrumentos todos
dessa banda de música?
Todos quebrados, os respectivos músicos caídos
num só horizonte.
Minha banda de música, se existe,
é agora
de homens descalços e instrumentos mudos.

Não sou o herói do dia.

Ah, o silêncio
de alguns amigos que deviam falar e não falam.
O grande silêncio
da banda de música que devia tocar e não toca.
O silêncio espantoso
de quem devia estar gritando
desesperadamente, e ficou quieto.
E ficou quieto, sem explicação.
Maestro, não é hora de tocar-se o hino nacional?

Ah, positivamente,
não sou o herói do dia...

sexta-feira, 6 de maio de 2011



Poema gentilmente enviado por Arsenio em abril:


"IRMANDADE

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra."

Octavio Paz


O EU MAIOR
De Gibran Kahlil Gibran
(Texto gentilmente enviado por Magna Santos em março)


Isto veio a acontecer. Após a sua coroação, Nufsibaal, Rei de Biblos, se recolheu ao seu quarto de dormir - o próprio quarto que os três eremitas-mágicos da montanha tinham construído para ele. Tirou a coroa e os trajes reais, e ficou de pé no meio do quarto pensando em si mesmo, agora o todo-poderoso governante de Biblos.
Subitamente voltou-se; e viu um homem nu sair do espelho de prata que sua mãe lhe dera.
O Rei ficou assombrado, e gritou para o homem: "Que queres?"
E o homem nu respondeu: "Nada senão uma resposta: Por que te coroaram Rei?"
E o Rei respondeu: "Porque sou o homem mais nobre do reino."
Então, o homem nu disse: "Se fosses ainda mais nobre, não poderias ser Rei."
E o Rei disse: "Porque sou o homem mais poderoso, coroaram-me Rei."
E o homem nu disse: "Se fosses ainda mais poderoso, não poderias ser Rei."
Então o Rei disse: "Porque sou o homem mais sábio, coroaram-me Rei."
E o homem nu disse: "Se fosses ainda mais sábio, não escolherias ser Rei."
Então, o Rei caiu no chão e chorou amargamente.
O homem nu baixou a vista para ele. Depois, tomou a coroa e, com ternura, recolocou-a na fronte curvada do Rei.
E o homem nu, olhando amorosamente para o Rei, reentrou no espelho.
E o Rei se levantou, e olhou para a espelho. E só se viu a si próprio, coroado.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Flor da Idade - Chico Buarque




PS:

Quadrilha
(Carlos Drummond de Andrade)

João amava Tereza que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Tereza para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


Acordar, Viver
De Carlos Drummond de Andrade


Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea