segunda-feira, 9 de maio de 2011



SONATA PATÉTICA
De Cassiano Ricardo

I

O meu rosto do retrat,
jovem, e por minha mãe
colocado na parede
deste quarto, onde hoje moro,
fica defronte ao do espelho.

O do espelho nem parece
ser o eu mesmo do retrato.
De tão triste: Diferente.
Parece mais um parente
corroído por muitos danos
mas ainda vivo, chegado
de uma viagem de trinta anos.

Como pude morrer tanto,
mudar de cor, e de fato,
sem um grito, sem um ai
entre um espelho e um retrato?
Só perguntando a meu pai.

Na hora, não senti nada...
Agora não me conformo
com a rude metamorfose
que me deixou sua marca.
Que me saqueou de mansinho,
me pôs nu diante do espelho
piando como um passarinho.
Como se a vida não fosse
Já tão magra, já tão parca.
Que fada exigente, má,
pediu meu rosto ao tetrarca?

Só mesmo a gente se rindo.

Rio-me desapontado,
por ver que já não adianta
chorar, se tudo está findo.

E vou do espelho ao retrato
(de cabelo repartido)
e do retrato ao espelho
(caco de espelho partido)
com qual dos dois me assemelho?
Lá fora dançam as árvores
no crepúsculo vermelho...


II

Tempo abutre pernilongo
ficou tocando violino
enquanto chupa meu sangue
em noite de serenata.

Bebeu água nos meus olhos .
Me depenou. Arrancou-me
penas do corpo e das asas.
E voa com minhas penas.
E leva, agora, o meu rosto
Para o lado do sol-posto.

Em cada passo que dou,
hoje, entre o espelho e o retrato,
já eu próprio me divido.
enquanto um pé é futuro
o outro já foi pro olvido.
E, sem sentir coisa alguma
(pois raramente me ajoelho)
vou andando, dividido,
meio anjo, meio bicho,
entre os dois: retrato e espelho.

Vou andando, repartido
entre o poeta do retrato
e o filósofo do espelho.
Entre o meu rosto, já ausente,
e o eu, de corpo presente.

Na hora não senti nada.
Não é nada... não é nada...
Depois é que sinto o estrago.
O tempo passou, num trago,
me depenou e, com as minhas
penas fez as suas asas.
Quando ouvi seu passo duro
_ pois caminho pro futuro
com o calcanhar para o oeste_
já ele ia pro sol-posto
onde enterrará o meu rosto.
Eu vejo tudo no espelho.
Chovem brasas! chovem brasas!

Só mesmo a gente se rindo
Sobre o espetáculo findo.
Lá fora as árvores dançam
no crepúsculo vermelho...


III

“O que me abisma, entretanto,
nesta grande tarde rubra,
já não é o eu haver sido
apedrejado em silêncio
por um secreto inimigo
que deve morar comigo
sem que eu, jamais, o descubra.
Já não é a bofetada
que o tempo, em câmara lenta,
me aplicou, não senti nada.
Já não é o terremoto
em meu chão de carne e osso,
sem registro no sismógrafo,
que passou, não senti nada.
O que me abisma, inda agora,
não é a distância que vai
entre o meu rosto do espelho
e o meu rosto do retrato.
É o tempo, o tempo que mói,
no céu, as próprias estrelas,
como uma farinha de ouro;
é o tempo, o tempo que rói
até o rosto dos retratos;
é o tempo que nos destrói
tudo, tudo-tudo-tudo,
nem de leve me haver doído.
Isto agora é que me dói.
Este, o insulto que revido.
Como pude morrer tanto,
e tanto, sem me haver doído?”

(Só mesmo achando engraçado
o que já triste, bem triste.)
E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho:
“Como é que uma bofetada
não me doeu, cruel, imensa,
no momento de ter doído?
Pra que eu tivesse reagido
na hora, à altura da ofensa?
Pois não senti a bofetada...
Isto agora é que me dói.”

“Que anestésico celeste
terá usado o vil abutre
que subverteu, em trinta anos,
toda minha geografia?
Comeu rosas, deixou cravos
no chão de tanto desgosto
que hoje é o mapa do meu rosto?
E tudo tão sem rumor,
Tudo tão sem me haver doído
que não lhe senti a bicada?
Este, o ponto que revido.
Isto agora é que me dói”

“Como hoje curar feridas
assim, retroativamente,
na máquina de costura
se as pedras, que a mão oculta
me arremessou, foram mudas?
Se não lhe senti a pedrada?
Isto agora é que me dói.”
E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho:
“Quero encontrar o agressor,
mas como? Ele está escondido
no curto espaço que vai
entre um espelho e um retrato.
A quem, pois, pedir conselho?
Ele ficou dividido
Entre os dois: retrato e espelho.
Quero caça-lo, não posso.
Sua boca é de um minuto
escondido sob as asas
mas ele tem cara grande
não cabe em fotografia.
Tem dois rostos, do tamanho,
Um, da noite, outro do dia.”
(E vou do espelho ao retrato
e do retrato ao espelho.)

“Uma coisinha de nada
dos solavancos em meio
arranhadura no dedo
picada de azul piranha
mordida de pernilongo
queda durante o passeio
feridazinha singela
no ato de abrir a janela,
já me obriga a fazer feio.
Como, pois, poderei eu
aceitar (eu, o agredido)
uma dor que não me doeu
no momento de ter doído?
Não é justo, não é honesto.
Contra isto é que protesto.
Tudo perdido, inclusive
Minha vocação para herói:
Isto agora é que mais dói!”
E rio-me sem querer.

Pois não me resta outra coisa
(por não ter sentido nada)
À hora do necrológio
senão me rir do que é triste
e... consultar o relógio.

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