quinta-feira, 23 de junho de 2011



A esperança. Só a esperança, nada mais.
Chega-se um ponto, em que não há mais nada senão ela...
É então que descobrimos que ainda temos tudo.

José Saramago


Cai um silêncio de ondas longas
e sucessivas como a chuva.
E que silêncio será esse
que cai assim antes de mim?
Fauna marinha, gestos lentos
de anjos calados golpeando
um polvo em fúria que me espera
(sob os sonhos). Há quanto tempo?
Poucos amigos, tudo salvo,
ainda temos nossas raivas
e uma esperança ilimitada
nos setembros. Mas, até quando?
Caem livros silenciosos
das prateleiras: baixa a luz
morna e abundante sobre as capas.
Que foi feito de tanta noite?
A esperança nova se agarra
entre as barreiras e as ossadas
de nossos morros. E por que
morremos antes de salvá-la?

ALBERTO DA CUNHA MELO

sábado, 18 de junho de 2011




O COLECIONADOR DO IMPOSSÍVEL
Para os amigos Abimael Lages e Carlos Maia


A vegetação não era rica, devastada pelas queimadas por parte de uns pequenos agricultores de subsistência e, também, pelo desmatamento clandestino – bastante comum naquela região.
A estrada não pavimentada, há pouco coberta pela noite, recebia agora toda a luminosidade daquele sol nordestino. Felipe, dirigindo a caminhonete, pensava agora no Ancião. Estaria ele vivo? Esperava que sim. Aquele velho de estranhas manias, significava muito para ele.
Os pensamentos de Felipe desviaram-se para o motivo que o trazia mais uma vez a sua cidade natal. Seus pais morreram há vinte anos, em uma data não muito comum em nossos calendários: 29 de fevereiro. E era somente no ano bissexto, precisamente nesta data, que ele regressava para subir o cruzeiro, e viver um momento de dor, reflexão e flores.
Os pneus da caminhonete tocavam finalmente o asfalto da cidade. Seus olhos já deveriam ter contemplado alguém. Em vez disso, surgiam a sua frente ruas vazias; casas desprovidas de qualquer sinal de vida. Não pôde evitar o pensamento: “ Será que todos subiram pela última vez o cruzeiro; corpos adormecidos sob a terra, porém ao mesmo tempo tão próximos do céu”?
Mal acabara de concluir seu devaneio, seus olhos vislumbraram uma figura conhecida. Expeliu toda tensão em um imenso sorriso, ao mesmo tempo em que acionou a buzina do carro. O vulto a sua frente dirigiu-lhe o olhar. O mesmo olhar de uma força que chegava a incomodar; a mesma força que, somada a de seu avô, ajudou a construir aquela cidade. Homem de grande sabedoria, velho de estranhas manias. A mais conhecida era a de distribuir apelidos. Todos na cidade foram batizados pelo velho, que nem a si próprio deixou escapar, denominando-se Ancião. E era por este nome, que Felipe o trataria:
- Onde está todo mundo? O que aconteceu Ancião?
- Eu estava esperando por você Bissexto. Quanto aos outros, estão logo adiante, despedindo-se do Colecionador.
Naquele instante Felipe revirou os arquivos de sua memória. Não conhecia ninguém daquele lugar que houvesse sido batizado pelo Ancião com aquele nome. Sabia que o homem a sua frente se divertia com sua surpresa e curiosidade. Também sabia que o mesmo só revelaria alguma coisa se fosse indagado. Estranho toda a cidade se reunir para despedir-se de uma única pessoa.
-Esta bem! Está bem!! Quem é esse Colecionador?
-Trata-se de um missionário. Chegou logo após a sua última visita. Ele coleciona o impossível.
- O senhor poderia ser mais claro?
- Em um de seus sermões, o missionário afirmou que para Deus nada é impossível. E para o homem? Bem sabemos que o ser humano possui suas limitações. Há pessoas que você não precisa conhecer por muito tempo para saber que elas jamais conseguiriam ser de outra maneira. Para elas a mudança é impossível. Assim como as folhas secas deitadas sobre a margem não acompanham o ciclo das águas, muitas dessas pessoas não acompanham o desenvolvimento da sociedade.
Contudo nem todo aquele que precisa mudar e não muda é filho do desequilíbrio social. Lembra-se do Dr. Ateu? Claro que se lembra! Agora ele não merece mais esse vulgo. Preciso arrumar outro. Tarefa extremamente difícil para mim. A velhice possui essa desvantagem: afeta nosso poder criativo. Do que eu estava falando? Sim...o Dr. Ex Ateu ou ex Dr. Ateu, não importa, agora faz parte da nova igreja. Todos fazem! Quantos nomes a serem mudados!! Imagine, logo o Dr...
Como vê o missionário têm predileção por casos perdidos. O Dr liderou a oposição ao trabalho do Colecionador. Eu próprio, contribui com várias sugestões. Hoje ele faz parte de uma coleção. Uma verdadeira galeria de casos impossíveis. Lembro-me da última conversa que tive com o ex Ateu. Não esqueço suas palavras:
- “Jesus Cristo substituiu a chama das minhas angústias pelo sol da salvação, cujos raios de felicidade atravessaram as barreiras da minha epiderme, invadindo veias... sangue novo a correr, desaguando vida em um coração, agora, rejuvenescido”.
Poético sem dúvida. Também profundo. Não nego. Quanto a mim, estou me dirigindo ao último sermão. Felipe boquiaberto escutara atento o relato do Ancião. Misturavam-se agora a grande multidão. As prostitutas de outrora, pareciam verdadeiras damas. Barril estava esquisito sem a garrafa de pinga; barba feita ; vestido de terno e gravata. E o responsável por tudo aquilo, seguia firme em sua pregação. Um simples amém deu por encerrada a oratória.
E Felipe não acreditou quando a mão do velho Bartolomeu atendeu ao convite do missionário, que imediatamente dirigiu-se ao seu encontro. Lágrimas! Sorrisos! Um grande sorriso. Sorriso infantil. O Colecionador pareceu, aos olhos de Felipe, um menino ao conseguir a peça mais valiosa de sua coleção. Não pôde deixar de compartilhar do seu sorriso. Havia no ar muitas emoções que precisavam ser destiladas. Felipe consultou o relógio, ciente de que o cruzeiro haveria de esperar mais um pouco.

Tadeu Rocha

PS1: O que mais me preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais me preocupa é o silêncio dos bons. (Martin Luther King)
PS2: Martin Luther King era um Colecionador do Impossível.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Aniversário de Fernando Pessoa



Fernando Pessoa - MAR PORTUGUÊS

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Ps: Obrigado Magna pela lembrança.

sábado, 11 de junho de 2011



Soprando No Vento (Blowin' In The Wind)
De Bob Dylan


Quantas estradas precisará um homem andar
Antes que possam chamá-lo de um homem?
Quantos mares precisará uma pomba branca sobrevoar,
Antes que ela possa dormir na areia?
Sim e quantas vezes precisará balas de canhão voar,
Até serem para sempre abandonadas?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

Sim e quantos anos pode existir uma montanha
Antes que ela seja lavada pelo mar?
Sim e quantos anos podem algumas pessoas existir,
Até que sejam permitidas a serem livres?
Sim e quantas vezes pode um homem virar sua cabeça,
E fingir que ele simplesmente não vê?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

Sim e quantas vezes precisará um homem olhar para cima
Antes que ele possa ver o céu?
Sim e quantas orelhas precisará ter um homem,
Antes que ele possa ouvir as pessoas chorarem?
Sim e quantas mortes ele causará até ele saber
Que muitas pessoas morreram?
A resposta, meu amigo, está soprando no vento
A resposta está soprando no vento

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dri alertou para o vídeo e eu resolvi compartilhar. Valeu minha amada pela dica!

segunda-feira, 6 de junho de 2011



TORTO


Confusão! Era tudo o que ele sabia fazer. O chamavam de Torto. Era assim que era conhecido o malandro. Dizem que ele nasceu com as pernas tortas só para não sentar praça. Só de pirraça o fizeram servir. Mas não durou muito. Sua presença minava o quartel.
Numa noite em que os rapazes cismavam em contar vantagens, ou seja, “mentiras das grandes”, lá estava o Torto. Cheio de ginga começou a falar – bom orador aquele peralta. Conseguiu conquistar a atenção de todos, embora duvide que qualquer um tenha acreditado naquela estória cheia de mulheres bonitas, tiroteio, perseguições e tudo o mais. Contudo era maravilhoso ouvir aquelas aventuras que sempre povoaram os sonhos de todos os malandros. Afinal dos presentes encontrava-se pelo menos uma pessoa que não desejasse ser o rei da malandragem? Claro que não. Todos queriam sê-lo. Ainda que a maioria não conseguisse ser mais do que capangas, pequenos cafetões ou traficantes sem peso.
Destino diferente teve o Torto. Meses depois daquela noite virou cafetão. Minas e mais minas se chegavam a ele ou ele a elas. Depois uma boca de fumo. Tráfico de cocaína seguida do domínio das jogatinas, com cassinos espalhados por toda cidade.
O que antes era mentira para impressionar seus colegas, agora era sua vida. Em suas fantasias sempre conseguia se safar, como por mágica. Pena que os milagres na realidade não sejam tão frequentes e as balas que vararam seu coração não se transformaram em flores.

Tadeu Rocha

PS1: Esse texto surgiu após a leitura dos contos de João Antonio (excelente contista).

PS2: "João Antonio cria uma espécie de normalidade do socialmente anormal, fazendo que os habitantes de sua noite deixem de ser excrescências e se tornem carne da mesma massa de que é feita a nossa. O seu submundo é um mundo como outros." Antonio Cândido.