segunda-feira, 6 de junho de 2011



TORTO


Confusão! Era tudo o que ele sabia fazer. O chamavam de Torto. Era assim que era conhecido o malandro. Dizem que ele nasceu com as pernas tortas só para não sentar praça. Só de pirraça o fizeram servir. Mas não durou muito. Sua presença minava o quartel.
Numa noite em que os rapazes cismavam em contar vantagens, ou seja, “mentiras das grandes”, lá estava o Torto. Cheio de ginga começou a falar – bom orador aquele peralta. Conseguiu conquistar a atenção de todos, embora duvide que qualquer um tenha acreditado naquela estória cheia de mulheres bonitas, tiroteio, perseguições e tudo o mais. Contudo era maravilhoso ouvir aquelas aventuras que sempre povoaram os sonhos de todos os malandros. Afinal dos presentes encontrava-se pelo menos uma pessoa que não desejasse ser o rei da malandragem? Claro que não. Todos queriam sê-lo. Ainda que a maioria não conseguisse ser mais do que capangas, pequenos cafetões ou traficantes sem peso.
Destino diferente teve o Torto. Meses depois daquela noite virou cafetão. Minas e mais minas se chegavam a ele ou ele a elas. Depois uma boca de fumo. Tráfico de cocaína seguida do domínio das jogatinas, com cassinos espalhados por toda cidade.
O que antes era mentira para impressionar seus colegas, agora era sua vida. Em suas fantasias sempre conseguia se safar, como por mágica. Pena que os milagres na realidade não sejam tão frequentes e as balas que vararam seu coração não se transformaram em flores.

Tadeu Rocha

PS1: Esse texto surgiu após a leitura dos contos de João Antonio (excelente contista).

PS2: "João Antonio cria uma espécie de normalidade do socialmente anormal, fazendo que os habitantes de sua noite deixem de ser excrescências e se tornem carne da mesma massa de que é feita a nossa. O seu submundo é um mundo como outros." Antonio Cândido.

2 comentários:

  1. Beleza de conto, Tadeu. Só faltou ser embalado por algum samba do Chico.
    Tu conseguiste dar visibilidade ao malandro, aliás, malandro é palavra poética que tem sido substituída por outras.
    De qualquer modo, o Torto mereceu a palavra e, no final, chegamos a vê-lo estampando as páginas policiais.
    Abraço.
    Magna

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