quinta-feira, 13 de outubro de 2011




Copo Vazio
Chico Buarque


É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
É sempre bom lembrar
Que o ar sombrio de um rosto
Está cheio de um ar vazio,
Vazio daquilo que no ar do copo
Ocupa um lugar.
É sempre bom lembrar,
Guardar de cor que o ar vazio
De um rosto sombrio está cheio de dor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar.
Que o ar no copo ocupa o lugar do vinho,
Que o vinho busca ocupar o lugar da dor.
Que a dor ocupa metade da verdade,
A verdadeira natureza interior.
Uma metade cheia, uma metade vazia.
Uma metade tristeza, uma metade alegria.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
A magia da verdade inteira, todo poderoso amor.
É sempre bom lembrar
Que um copo vazio
Está cheio de ar

sexta-feira, 7 de outubro de 2011



Metamorfose


Versos nos varais
Vento sopra Vivaldi
Dança da chuva
Fuga do sol

Nuvens cantam liberdade
Versos gotejam
Freneticamente
Travessia
Do varal ao chão

Semente
Árvore que cresce
Folhas bailam ao vento
Fruto que nasce
Varal vazio
Transformação

Tadeu Rocha

domingo, 2 de outubro de 2011

Devaneio




As folhas deitavam suavemente no asfalto da Rua Osvaldo Cruz. Pensamentos se confundiam na cabeça do jovem José. Seus pés queriam parar, mas a sua mente ordenava que continuassem. Seu devaneio seria o cano de escape que aliviaria sua tensão.

As folhas continuavam a cair. O vento passeava em forma de brisa. Ali estava! À sua frente surgia o hospital. Queria voltar. Não conseguia. Queria gritar. As pessoas que passavam sufocavam seu grito. Seus olhos alcançavam todo o prédio. O hospital lhe trazia o passado. Lembranças... Alguém! Morte! Dor! Devaneio!

Um amigo o reconhece. Grita seu nome! José corre! Não sabe por quê. Talvez seja a loucura que lhe impulsionava a correr. Novamente escuta seu nome. Não para! A Conde da Boa Vista o recebe. Um choque! Um grito! Não existem mais pensamentos. Contudo as folhas, indiferentes, continuam a cair no asfalto.

Tadeu Rocha